Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 30-09-2026
Jornal Online

SECÇÃO: Editorial


foto

Um novo ano letivo

Começa um novo ano letivo em Ermesinde. As escolas voltam a encher-se de vozes, mochilas, encontros e expectativas. Para muitos alunos, é o regresso a uma rotina conhecida; para outros, é o início de uma nova etapa. Para todos, deveria ser, sobretudo, uma oportunidade de aprender, crescer e descobrir. Mas o arranque de mais um ano escolar não pode ignorar os sinais de alerta que chegam de fora das salas de aula e que ajudam a perceber alguns dos desafios que hoje se colocam à Educação, em Ermesinde como no restante concelho de Valongo e no país.

Os resultados do PISA são, a este propósito, um sério motivo de reflexão. Os estudantes portugueses obtiveram 460 pontos a Matemática e 462 a Leitura, os piores resultados desde 2000, enquanto nas Ciências alcançaram 482 pontos. Portugal recua, assim, duas décadas em áreas fundamentais da aprendizagem. É verdade que não estamos perante um fenómeno exclusivamente português. A deterioração dos resultados educativos é, em grande medida, transversal aos países da OCDE, o que demonstra que estamos perante um problema mais vasto e complexo. Mas essa constatação não pode servir de desculpa, pelo contrário, deve obrigar-nos a perceber o que está a acontecer e o que podemos fazer melhor.

Entre os fatores apontados pelos especialistas surge um elemento incontornável da vida contemporânea: os ecrãs. Smartphones, redes sociais, plataformas digitais e conteúdos concebidos para captar continuamente a atenção passaram a fazer parte do quotidiano de crianças e adolescentes. A tecnologia trouxe oportunidades extraordinárias, mas a utilização excessiva e precoce parece estar a cobrar um preço que começa a ser visível na capacidade de concentração, na leitura e, consequentemente, na aprendizagem.

O dado mais preocupante talvez esteja precisamente na leitura. Quando um jovem encontra cada vez mais dificuldade em manter a atenção perante um texto extenso, perde-se muito mais do que a capacidade de interpretar palavras. Numa sociedade inundada de informação, saber ler profundamente torna-se, paradoxalmente, uma competência ainda mais importante.

É aqui que a escola tem um papel decisivo. Não se trata de declarar guerra à tecnologia, nem de imaginar uma escola desligada do mundo em que vivem os seus alunos. Seria absurdo. A inteligência artificial, as ferramentas digitais e os novos recursos tecnológicos podem enriquecer as aprendizagens e abrir portas que antes estavam fechadas. O problema começa quando a ferramenta deixa de estar ao serviço da aprendizagem e passa a disputar com ela a atenção dos alunos.

Os números sobre a utilização dos dispositivos devem, por isso, preocupar famílias, escolas e comunidade. Se uma parte significativa dos menores passa mais de uma hora por dia diante de ecrãs durante a semana, percentagem que aumenta ao fim de semana, e se muitos adolescentes reconhecem dificuldades em controlar o tempo de utilização, então não estamos apenas perante uma questão tecnológica. Estamos perante uma questão educativa, familiar e social.

É precisamente neste ponto que ganha particular significado o tema escolhido pelo Município de Valongo para a abertura do ano letivo 2026/2027: “Educar para as relações”. A escolha foi muito oportuna. Num momento em que a tecnologia aproxima pessoas, mas também pode afastá-las; em que a informação está disponível com um toque, mas a atenção se torna cada vez mais escassa; e em que as escolas acolhem uma diversidade cultural crescente (as escolas portuguesas têm quase 200 mil alunos de 184 nacionalidades), importa recordar aquilo que nenhuma aplicação ou algoritmo consegue substituir: a relação humana.

Em Ermesinde, como em todas as comunidades escolares, ensinar não é apenas transmitir conteúdos. É acompanhar, motivar, escutar, exigir, compreender e dar confiança. É o professor que percebe que determinado aluno está a ficar para trás. É o auxiliar que conhece as crianças pelo nome. É a família que estabelece limites e acompanha. É a escola que cria condições para que ninguém seja deixado para trás.

Um novo ano letivo deve, por isso, começar também com um compromisso. Um compromisso com a exigência, porque os resultados não podem ser relativizados; com a leitura, porque sem compreensão não há aprendizagem sólida; com a tecnologia, mas uma tecnologia utilizada com critério; e, acima de tudo, com as relações, porque nenhuma transformação educativa será verdadeiramente bem-sucedida se esquecer as pessoas.

Ermesinde precisa de escolas onde os alunos aprendam Matemática, Ciências, História e Português, mas também onde aprendam a concentrar-se, a questionar, a ouvir, a respeitar e a conviver. Precisa de professores valorizados e de famílias presentes. Precisa de tecnologia, sim, mas não de uma escola dominada por ecrãs.

O desafio deste novo ano letivo é, afinal, simples de enunciar e difícil de concretizar: usar o melhor que a tecnologia tem para oferecer sem permitir que ela nos roube aquilo que nos torna humanos. Porque educar continuará a ser, antes de tudo, uma relação entre pessoas. E é nessa relação que começa, todos os dias, a verdadeira aprendizagem.

Por: Manuel Augusto Dias

 

Outras Notícias

 

este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
© 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
Comentários sobre o site: [email protected].