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Edição de 31-03-2026
Jornal Online

SECÇÃO: Editorial


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Dia da Mulher versus Mundo em tensão

A comemoração do Dia Internacional da Mulher, em março, assumiu este ano um significado particularmente expressivo. Celebram-se cinco décadas da Constituição da República Portuguesa e das primeiras eleições autárquicas em liberdade. Cinquenta anos de poder local democrático, de construção paciente da vida coletiva e de participação crescente das mulheres na esfera pública.

No concelho de Valongo, os números são reveladores: 171 mulheres, ao longo destas décadas, exerceram cargos políticos na Câmara Municipal, na Assembleia Municipal e nas Assembleias de Freguesia. Muitas integraram executivos, assumiram responsabilidades e contribuíram diretamente para a definição do rumo coletivo. Não se trata apenas de um dado estatístico, trata-se de um sinal claro de maturidade democrática.

Durante demasiado tempo, a política foi entendida como um espaço predominantemente masculino. A democracia abriu portas, mas foi necessário que muitas mulheres tivessem a determinação de as atravessar. Fizeram-no enfrentando resistências, preconceitos e a difícil conciliação entre vida familiar, profissional e pública. Ao fazê-lo, não apenas ocuparam lugares, transformaram a própria natureza da participação política.

Hoje, é evidente que a presença feminina trouxe novas perspetivas, maior sensibilidade às questões sociais, educativas e culturais, e uma proximidade reforçada às realidades concretas das populações. Em Ermesinde e no concelho de Valongo, essa participação é efetiva, consistente e determinante. São mulheres que presidiram a juntas, que foram vereadoras, deputadas municipais, membros ativos das assembleias de freguesia, contribuindo para decisões estruturantes na educação, no urbanismo, na cultura e no associativismo.

Este dinamismo não se limita à política. Também no tecido empresarial se afirma uma liderança feminina cada vez mais sólida. Ainda recentemente aqui se destacou o exemplo de uma gestora ermesindense à frente de uma empresa de dimensão nacional no setor da construção. Num universo tradicionalmente masculino, afirma-se pela competência, pela visão estratégica e pela capacidade de decisão.

Contudo, este quadro de progresso contrasta de forma inquietante com o contexto internacional que se vive atualmente. A escalada da guerra no Médio Oriente, alastrada ao Irão e a outros países da região, veio agravar uma situação já de si extremamente preocupante. O conflito, longe de se conter, ganha novas dimensões e ameaça a estabilidade global.

As consequências fazem-se sentir de imediato, mesmo em países que não são intervenientes diretos. O aumento abrupto dos preços dos combustíveis, o agravamento do custo de vida e a incerteza económica afetam famílias, empresas e instituições. Num mundo interligado, nenhuma crise desta natureza permanece localizada.

Mais preocupante ainda é a perceção de que parece imperar, uma vez mais, a lei do mais forte. Esperar-se-ia que as grandes potências, particularmente aquelas que há mais de oitenta anos ocupam lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com direito de veto, desempenhassem um papel decisivo na contenção dos conflitos e na promoção da paz. Contudo, a realidade demonstra frequentemente o contrário: interesses estratégicos sobrepõem-se ao bem comum e à estabilidade internacional.

Este contraste entre o progresso democrático local e a instabilidade global deve merecer reflexão. Ao nível das comunidades, constrói-se diariamente uma democracia mais inclusiva, mais participada e mais equilibrada. Ao nível internacional, persistem lógicas de poder que parecem resistir à evolução dos princípios que sustentam essa mesma democracia.

Talvez por isso se torne ainda mais relevante valorizar o papel das mulheres na decisão. A sua presença crescente, tanto na política como na economia, representa não apenas um avanço em termos de igualdade, mas também uma oportunidade de enriquecer os processos de decisão com outras abordagens, frequentemente mais dialogantes, mais inclusivas e mais orientadas para a resolução pacífica dos conflitos.

Naturalmente, persistem desafios. A igualdade plena exige mais do que presença: exige condições efetivas de participação, reconhecimento do mérito e partilha equilibrada de responsabilidades. Mas o caminho feito é inegável.

Num tempo marcado por incertezas e tensões, importa recordar que a democracia se constrói a partir das comunidades e das pessoas que nelas participam. Muitas dessas pessoas são mulheres que decidiram intervir, assumir responsabilidades e contribuir para o bem comum.

Cinco décadas depois das primeiras eleições livres, a melhor homenagem que lhes podemos prestar é continuar esse percurso. Num mundo onde tantas decisões ainda se tomam sob a lógica da força, importa afirmar, com convicção, o valor de uma participação mais ampla, mais equilibrada e mais responsável.

Por: Manuel Augusto Dias

 

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