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Edição de 31-01-2026
Jornal Online

SECÇÃO: Editorial


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Memória e Futuro

O ano que agora se inicia revela-se particularmente fértil em efemérides de grande significado, convidando a uma reflexão histórica e cívica sobre o percurso coletivo do país e sobre o papel das instituições que, ao longo do tempo, o têm acompanhado, interpretado e registado. Entre essas entidades conta-se A Voz de Ermesinde, que assinala este mês o seu 68.º aniversário, uma longevidade rara no panorama da imprensa local e regional portuguesa, construída com persistência, independência editorial e um firme sentido de responsabilidade cívica.

Sessenta e oito anos após a sua fundação, A Voz de Ermesinde continua a afirmar-se como espaço de informação, reflexão e memória, acompanhando gerações, profundas transformações sociais e mudanças políticas determinantes. Num tempo marcado pela vertigem informativa e pela fragilidade de muitos projetos jornalísticos, a continuidade deste jornal constitui, por si só, um testemunho eloquente da importância da imprensa local enquanto elemento estruturante da vida democrática e comunitária. Como sinal dessa vitalidade, que acreditamos saberemos preservar, iniciamos hoje duas novas rubricas: “Ermesinde depois de Abril” e “Falando de comboios”. Aletrámos também o layou da 1.ª página, tentando torná-la mais atrativa para o leitor.

Mas 2026 não se esgota nesta data simbólica. Logo a 1 de janeiro assinalaram-se 40 anos sobre a entrada de Portugal na então denominada Comunidade Económica Europeia. Trata-se de um marco incontornável da história contemporânea portuguesa, cujos efeitos se refletiram na modernização das infraestruturas, no crescimento económico, na qualificação dos recursos humanos e na aproximação do país aos padrões europeus de desenvolvimento. Para territórios como o nosso, frequentemente afastados dos grandes centros de decisão, a integração europeia representou oportunidades concretas de progresso e coesão, ainda que acompanhadas de desafios que importa continuar a analisar com espírito crítico.

O calendário comemorativo recua, contudo, ainda mais no tempo. Em 29 de abril de 1826 entrou em vigor a Carta Constitucional, o primeiro texto constitucional português efetivamente aplicado. Duzentos anos depois, a sua evocação mantém plena atualidade, não apenas pelo longo tempo que esteve em vigor, de facto, foi o texto constitucional com maior duração na nossa história constitucional, mas sobretudo pelo que simboliza: as difíceis e prolongadas lutas do século XIX pelo constitucionalismo, pela limitação do poder absoluto e pela consagração de direitos fundamentais num país profundamente dividido.

No plano da história mais recente, 2026 assinala igualmente os 50 anos de acontecimentos decisivos para a consolidação da democracia portuguesa. A 25 de abril de 1976 entrou em vigor a Constituição da República Portuguesa, ainda hoje vigente, consagrando um vasto conjunto de direitos, liberdades e garantias, bem como direitos sociais essenciais. Nesse mesmo dia realizaram-se as primeiras eleições legislativas livres, após quase meio século de ditadura.

Dois meses depois, a 27 de junho, tiveram lugar as primeiras eleições presidenciais por sufrágio universal e direto, reforçando a legitimidade democrática do regime. Finalmente, a 12 de dezembro de 1976, realizaram-se as primeiras eleições autárquicas democráticas, devolvendo o poder local às populações e afirmando a proximidade como um dos pilares estruturantes da democracia portuguesa.

Estas efemérides, consideradas em conjunto, não constituem um mero exercício comemorativo. Representam etapas fundamentais na construção de um regime assente na liberdade, na participação cívica e no respeito pelos direitos humanos. Evocá-las com rigor histórico não é um gesto de nostalgia, mas um dever de memória, tanto mais necessário num contexto internacional em que a “lei do mais forte” parece querer impor-se como regra, em que países com responsabilidades acrescidas na preservação da paz mundial são, paradoxalmente, atores centrais na escalada de conflitos e na legitimação da guerra. Como compreender, que, em pleno século XXI, um Estado aprisione e leve consigo o chefe de Estado de outro país, como vimos acontecer muito recentemente?

Entretanto, em Portugal, 40 anos depois, o país prepara-se para uma segunda volta das eleições presidenciais. Oxalá todos os cidadãos eleitores cumpram a sua obrigação cívica de votar. A democracia diz respeito a todos.

Num tempo de incerteza, polarização e desinformação, recordar os caminhos percorridos ajuda-nos a compreender o valor das conquistas alcançadas e a responsabilidade coletiva de as preservar.

Caros Assinantes,

A Voz de Ermesinde, que completa 68 anos de publicação, apela aos seus leitores e assinantes para a regularização das assinaturas em atraso, quer da edição em papel, quer da edição digital.

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A Direção

Por: Manuel Augusto Dias

 

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