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Vocação de mabeco
(Anteriormente: Um cão abandonado aventura-se na savana africana e consegue ser aceite numa matilha de mabecos - cães selvagens.)
Continuação:
Alvo de curiosidade do bando, mostrou-se sempre humilde, prostrando-se e ganindo a cada aproximação mais desconfiada. Aos poucos, começou a acompanhar a matilha nas caçadas. Não tinha a velocidade nem a técnica dos mabecos, mas ajudava nas estratégias de separação de uma presa de um grupo. Depois corria, enquanto conseguia. A princípio, quando chegava ao local do abate, a presa já tinha sido esfacelada e os líderes do grupo já se tinham alimentado. Mas sobrava sempre alguma coisa. Aquando da primeira zebra, abandonaram quase um quarto da carcaça aos abutres.
Ao fim de uns meses, já tinha o seu lugar no grupo, em posição subalterna, é certo, mas participava em todas as caçadas com grande entusiasmo e mesmo alegria. Surpreender a presa incauta, lançar-lhe um latido “Eu vou atrás de ti”, perceber-lhe o medo, persegui-la implacavelmente, integrado na matilha de uma dúzia de mabecos, ladrar alto “Encostem-no à parede!”, como tinha ouvido na cidade dos homens, conseguir mordiscar-lhe o ventre ou uma pata, participar no derrube final, ferrar-lhe os caninos na goela, senti-la a esvair-se, a desistir de lutar, exaltava-o até ao uivo.
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| ILUSTRAÇÃO @RODOLFO.BISPO77 |
Depois do ardor e da alegria da perseguição, a festa das carnes, das vísceras arrancadas, engolidas a correr, uma e outra vez. Como estava contente por se ter decidido pela savana, em vez de andar aos caixotes na cidade, a catar restos azedos, a morrer de vergonha alheia pelo comportamento de outros cães!
Mas a vida na savana não é só vitórias. Come-se e é-se comido. Talvez um ano depois de chegar à savana, enquanto estava emboscada a observar a movimentação de uma manada de gnus-de-cauda-preta, a matilha foi cercada por várias leoas caçadoras. Também elas tinham estudado a matilha e concentraram o ataque no elemento mais fraco: o cão da cidade.
Separado do resto da matilha em fuga, correu quanto pôde, mas a velocidade não era comparável. Não ouviu nenhum “Eu vou atrás de ti”, das leoas, mas o terror que o invadiu não tinha paralelo com qualquer outro medo que já tivesse sentido, nem mesmo quando fora encontrado ferido pelos mabecos. Parecia que os músculos não respondiam como esperava. Sentiu-se perdido.
No auge do cansaço, enfrentou
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Por:
Joaquim Bispo
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