Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 30-04-2026
Jornal Online

SECÇÃO: Local


CORREIO DO LEITOR

Os pouca terra

foto
Desta vez, desejo fazer uma viagem com o nosso estimado colaborador, senhor Alberto Mateus, o sonhador, como eu, dos “pouca terra” (vulgo comboios) e não só. Como o meu espaço é diminuto tenho de acelerar. Assim, aqui vai para o bom amigo juntar às suas memórias. Aqui o João Carrilho, nascido em Castelo de Vide, onde parece que nasci debaixo de uma ponte ferroviária do Ramal de Cáceres, vizinho de uma passagem de nível onde exercia a sua profissão a Ti Senhorinha, guarda da passagem de nível e de seu marido Ti Ramiro, o zeloso chefe de distrito, com a responsabilidade da manutenção do troço do Ramal de Cáceres, creio entre as estações de Castelo de Vide e da Beirã. Ti era o nome que no Alto Alentejo se dava aos mais idosos por amizade e carinho. Estes senhores eram os avós dos nosso herói e saudoso Fernando Salgueiro Maia. Como o meu pai, moravam ali perto e todos se davam muito bem. Quando eu era criança passava ali férias, com o Fernando, em casa dos avós. Meu pai deixava-me ir passar as tardes para brincar com o Fernando à sombra da grande cerejeira que muitos anos mais tarde não deixaram morrer de pé. Até aos 20 anos por ali vi passar o Lusitânia às 24h00 e de manhã o Sardinheiro, vindo de Santa Apolónia e que parava em todas as estações. Também regularmente ali passavam comboios de mercadorias. Na minha adolescência lá vinham as saudosas maquinetas a vapor, só mais tarde vieram as diesel. Recordo o grande movimento de passageiros e mercadorias na linda da Estação de Castelo de Vide, assim como a lenda da construção do Ramal de Cáceres, Castelo de Vide-Beirã. Este ramal lá continua, cheinho de curvas, e dizia-se ter sido elaborado por um engenheiro inglês, o seu vocabulário dos Ye Ye’s. Assim, aos 20 anos no “pouca terra” fumarento e vaporento embarquei para Lisboa, para a tropa. Quando das visitas à família, embarcava às 21h00 no conhecido Sardinheiro, com banquinhos de suma-pau, locomotivas a carvão, e chegávamos a Castelo de Vide às 07H00, com aquele cheirinho e paladar acre-doce a carvão de pedra. Passaram-se anos, e em 1963, fui colocado no CIOE de Lamego. Viajava de Campanhã até à Régua no comboio ainda a vapor, o “pouca terra”, percorrendo pachorrentamente… muita terra. Ainda hoje não esqueço as belas viagens e continuo amigo de comboios, de qualquer feitio. Mas certamente já não morrerei no TGV. Das várias profissões que desempenhei, a principal e do coração, foi a de motorista de pesados, em que passei 27 anos. Mais tarde, e durante 10 anos, ligaram-me à ferrovia, em empresa particular, onde tive formação de maquinista, apenas serviço interno, nunca entrando nas vias da CP por não estar habilitado, nem necessário. Tive apenas conhecimentos básicos de condução e de manobras. Não me podendo expressar mais aqui fica um rascunho para o amigo colaborador poder juntar aos seus conhecimentos e amor pela ferrovia e comboios. E certamente deve saber que o nosso Capitão de Abril era filho e neto de ferroviários, e a quem estive muto ligado. Isto é apenas um breve resumo, do que muito tenho na memória, desde a minha infância ligada aos saudosos comboios, que ao longo da vida me acompanharam e transportaram. Não esquecendo no tempo que até famílias abastadas chegávamos ao final da viagem com o tal aroma agridoce dos fuminhos a carvão de pedra, ainda adormecidos nos nossos pulmões.

Se possível dedico estas linhas aos amigos dos comboios e muito em especial ao nosso colaborador senhor Alberto Mateus.

João Dias Carrilho: C.C. n.º 454502

 

 

este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
© 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
Comentários sobre o site: [email protected].