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Edição de 30-04-2026
Jornal Online

SECÇÃO: História


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ERMEISNDE DEPOIS DE ABRIL (4)

O ano 1977

O ano de 1977 assumiu, em Ermesinde, um significado particular no processo de consolidação das dinâmicas desencadeadas pela Revolução de 25 de Abril de 1974. Ultrapassada a fase mais intensa do período revolucionário, a vila entrava num tempo de organização institucional, em que os órgãos autárquicos democraticamente eleitos começavam a exercer, de forma efetiva, as suas competências. Em simultâneo, a sociedade local revelava um crescente dinamismo associativo e cultural, ao mesmo tempo que se tornavam mais visíveis os desafios decorrentes de um rápido crescimento urbano e populacional.

As eleições autárquicas de 12 de dezembro de 1976 constituíram um marco determinante para este novo ciclo. Pela primeira vez, os cidadãos foram chamados a eleger diretamente os seus representantes ao nível local, dando corpo ao princípio da descentralização administrativa consagrado na jovem democracia portuguesa. No concelho de Valongo, o executivo camarário passou a integrar representantes de diferentes freguesias, incluindo vários eleitos por Ermesinde, refletindo o peso demográfico e político da vila no contexto municipal.

Na freguesia de Ermesinde, os resultados eleitorais evidenciaram uma participação significativa, com cerca de 70% dos eleitores inscritos a exercerem o seu direito de voto. O Partido Socialista emergiu como força dominante, conquistando a maioria relativa dos mandatos, seguido do então Partido Popular Democrático e do Centro Democrático Social, enquanto outras formações, como a Frente Eleitoral Povo Unido e os Grupos Dinamizadores de Unidade Popular, também marcaram presença no escrutínio, ainda que com menor expressão. Este quadro político traduzia, à escala local, a diversidade ideológica característica do período pós-revolucionário.

Foi neste contexto que, em fevereiro de 1977, tomou posse o primeiro executivo da Junta de Freguesia de Ermesinde legitimado pelo voto popular. A presidência coube a Alberto de Oliveira Ramalho, cuja ação se inscreveu na tarefa exigente de estruturar uma administração de proximidade capaz de responder às necessidades de uma população em crescimento. A nova Junta de Freguesia assumia funções num cenário marcado por carências infraestruturais e pela necessidade de afirmar o papel do poder local enquanto agente ativo de desenvolvimento.

Paralelamente à organização institucional, o tecido associativo continuava a desempenhar um papel central na vida da comunidade. Um dos exemplos mais significativos foi o dinamismo da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ermesinde, cujo Departamento de Convívio e Cultura, criado em 1976, se afirmou rapidamente como um dos principais polos de animação cultural da vila. Em janeiro de 1977, a inauguração do palco do Salão de Festas dos Bombeiros representou um investimento relevante na criação de condições para a realização de espetáculos e iniciativas culturais, sendo então considerado um dos melhores equipamentos do género no país, no âmbito das associações de bombeiros.

Este espaço viria a acolher, ao longo do ano, diversas atividades que testemunham a vitalidade cultural de Ermesinde. Em abril, o salão recebeu a atuação do grupo teatral dos Gaiatos do Padre Américo, que apresentou uma revista de cariz popular, evidenciando a ligação entre a cultura e as preocupações sociais. Já em julho, um concerto da Orquestra Ligeira do Exército encheu completamente a sala, confirmando a capacidade de mobilização do público local. Também no Dia Mundial da Música, em outubro, a Orquestra da Câmara do Porto proporcionou um momento cultural de relevo, sob a direção do maestro José Atalaia.

A par destas iniciativas, a religiosidade mantinha-se como uma dimensão estruturante da vida comunitária. Um inquérito promovido pelo episcopado, realizado em fevereiro de 1977, permitiu aferir a expressiva participação dos fiéis nas celebrações dominicais, com destaque para a significativa presença de jovens. Este dado revela não apenas a vitalidade da prática religiosa, mas também a sua importância enquanto espaço de socialização e coesão comunitária.

BUSTO DO PADRE AMÉRICO
BUSTO DO PADRE AMÉRICO
Nesse mesmo domínio, a cerimónia de sagração de D. Lourenço Moreira da Silva como abade do Mosteiro de Singeverga, presidida pelo Bispo do Porto, constituiu um momento de particular relevância para Ermesinde, ao homenagear um filho da terra que alcançava destaque na hierarquia eclesiástica. Este acontecimento reforçou os laços entre a comunidade local e as instituições religiosas, num período em que a Igreja continuava a desempenhar um papel relevante no apoio social e educativo.

Outro momento simbólico de grande significado ocorreu em outubro, com a inauguração de um busto em homenagem ao Padre Américo, figura incontornável da ação social em Portugal. Implantado na zona da Bela, este monumento perpetuava a memória de um homem profundamente ligado às causas dos mais desfavorecidos, cuja obra teve impacto também em Ermesinde. A homenagem refletia o reconhecimento coletivo de uma vida dedicada à solidariedade e ao serviço dos outros.

A vitalidade associativa manifestou-se igualmente no reconhecimento público de personalidades e instituições locais. Em fevereiro, foram homenageados antigos dirigentes dos Bombeiros, bem como figuras que se destacaram no esforço de construção do quartel, num gesto que evidenciava a valorização da memória e do trabalho comunitário. Este tipo de iniciativas contribuía para fortalecer o sentimento de pertença e identidade local.

No plano social, destacava-se a existência de diversas Comissões de Moradores em vários bairros da vila, como Sonhos, Cruzeiro, Zona Sul, Montes da Costa, Montes de Sá e Fonte Calvário. Estas estruturas, herdeiras do espírito participativo do período revolucionário, desempenhavam um papel importante na identificação de problemas locais e na reivindicação de melhores condições de vida. A sua atuação revelava uma população ativa, consciente dos seus direitos e empenhada em influenciar as decisões que afetavam o quotidiano.

Apesar desta dinâmica, tornavam-se cada vez mais evidentes as

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Por: Manuel Augusto Dias

 

 

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