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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 15-06-2005

    SECÇÃO: Cultura


    Foto Ursula Zangger
    Foto Ursula Zangger

    Uma ponte entre o Leça e o centro de Ermesinde

    A associação cultural Ágora realizou no passado dia 4 de Junho, o seu 2º Passeio Pedestre de Ermesinde, mais uma vez orientado por Jacinto Soares - um soberbo conhecedor da história local -, e desta vez subordinado ao tema “À Volta do Rio Leça”. A ideia era descobrir a história da cidade na relação com o seu rio, ou vice-versa, a história do rio na relação com Ermesinde.

    Manhã de calor intenso, os viandantes concentraram-se à porta do Fórum Cultural de Ermesinde, no centro da cidade e daí partiram para a sua periferia, a explorar as margens do Leça.

    Primeiro ponto de paragem, a Capela de S. Silvestre, construção que, originalmente remontará ao século XVII (1625) e que chegou até nós após variadas vicissitudes.

    Foto Ursula Zangger. Ponte ferroviária da Travagem.
    Foto Ursula Zangger. Ponte ferroviária da Travagem.
    Os caminhantes desceram, em seguida, a Miguel Bombarda. Ponto interessante de passagem foi a Casa do Pinhal, onde se situava até há poucos anos, um passadiço sobre a rua, a ligar a propriedade de um lado e de outro.

    Estamos ali na presença do que foi, antigamente, a Quinta Marques de Sousa, uma propriedade agrícola de largas proporções, e que o seu proprietário mandou murar e mesmo muralhar.

    Muito próximo na Rua do Passal, ter-se-á situado a primeira Sopa dos Pobres, que dará mais tarde origem ao Centro Social de Ermesinde.

    Os viandantes descem mais um pouco e, já nas margens do Leça deparam-se com o local em que existia uma prancha e onde se situava a piscina natural do Leça. Ali nadaram e se treinaram campeões nacionais de natação e nasceu o CPN.

    Local que deveria merecer alguma estima, encontra--se todavia mergulhado no meio de entulho, com saída de esgotos, matagal misturado com farrapos e sacos de plástico (inqualificável!).

    Foto Manuel Valdrez. Moinho do Panelas.
    Foto Manuel Valdrez. Moinho do Panelas.
    Uns cinquenta metros à frente encontram os passeantes o Moinho do Abade, edificação que data dos inícios do século XIX (1802) e que ilustra bem o significado económico da revolução do milho no crescimento da cidade.

    Este moinho funcionou regularmente até aos anos 60. Hoje em dia, fica mais barato ao moleiro importar o milho de Itália e a construção, de uma grande riqueza histórica e etnográfica, onde ainda se arrecadam as sacas de farinha (importadas), ameaça desaparecer e com ela um pedaço marcante da história de Ermesinde. O que não tem qualquer importância, pois como se sabe (gozamos), o milho, a farinha e o pão são assunto de Valongo.

    No moinho encontrámos também Abílio Teles, mais conhecido pelo Rambóia, personagem popular que se tem encarregue de não deixar morrer uma velha tradição burlesca de Ermesinde, o “Enterro do João”. Mas o dinheiro não abunda e o Rambóia, sem apoio, já não consegue pôr de pé as maroteiras que emanavam do testamento do singular personagem, que chegava a terra vindo de comboio – tal como o Leça, via privilegiada da vida da cidade, quando apareceu.

    Logo ao lado surge a construção da recuperada Casa do Abade (hoje propriedade da família Carvalhal) uma entre muitas das casas de propriedade clerical do século XIX.

    Foto Manuel Valdrez. Atentado ecológico - zona da Travagem.
    Foto Manuel Valdrez. Atentado ecológico - zona da Travagem.
    O MORRO DA BELA

    Os caminhantes andam um pouco mais e chegam ao largo da antiga feira, construído de raiz para aquele efeito. Foi só depois da sua implantação que começaram a surgir as casas à sua volta.

    Com o sucesso e expansão da feira a fazê-la transbordar para todos os lados, Jacinto Soares explica como se aproveitou para alargá-la um pouco mais, construindo um terraço em cima do lavadouro ali perto existente.

    Descemos um pouco e aproximamo-nos do ponto onde existiu uma velha ponte medieval sobre o Leça, hoje cimentada, junto à Churrasqueira de Ermesinde.

    Jacinto Soares explica, mais uma vez, como se tentou ultrapassar ali a Natureza, construindo uma ponte para acesso àquele restaurante, entretanto já levada pelas águas, como se estreitou o leito do rio, fazendo-o sair do seu curso natural, como se aterrou o local, com muito pouca consciência ecológica, obrigando-o a compreensivos acessos regulares de mau génio.

    Ali perto situa-se a também antiga ponte rodoviária da Travagem, junto da qual, no sítio onde hoje se situa a Casa Lino, esteve instalado o Hotel Sobral ou Hotel da Travagem, que terá acolhido de passagem a rainha D. Maria II.

    As imediações do local, eram não há muitas décadas palco não só do Enterro do João, como da feira de Páscoa (segunda-feira a seguir), onde as populações e, sobretudo a mocidade, acedia aos magotes em busca de namoro.

    Passando a ponte para o outro lado, e subindo em direcção à Bela, acompanhando o rio para montante na sua margem direita, surge--nos, à nossa esquerda o Morro da Bela. O cicerone do passeio pedestre refere terem vivido acolá, há umas décadas, um grupo de famílias (a quem pejorativamente chamavam os pretos da Bela) e que constituíam uma unidade sociológica relativamente intrigante. De tez mais escura que a maioria da população ermesindense, viviam ali numa espécie de ghetto, de que ninguém podia ou queria aproximar-se. O seu modo de vida, por muitos anos, terá sido a apanha das pinhas, que vendiam aos sacos. Eram de tal modo conhecidos pelos seus costumes mais violentos, que os Bombeiros de Ermesinde chegaram mesmo a ter um piquete especial para ir ao Morro da Bela. Terão sido, em grande parte, dizimados pelo surto de peste bubónica na transição do século.

    Foto Manuel Valdrez. Jacinto Soares aponta antigo local da cultura do linho.
    Foto Manuel Valdrez. Jacinto Soares aponta antigo local da cultura do linho.
    TERRA AGRÍCOLA

    E TERRA DE CARVÃO

    Continuando o caminho, mais à frente vislumbra-se o moinho do Panelas que com o moinho do Abade delimitavam o percurso dos praticantes da natação.

    Desagua por ali o rio Asmes que, durante muito tempo deu o nome à localidade (S. Lourenço d’ Asmes).

    Jacinto Soares refere também as actividades industriais ligadas à terra, conhecida por se fazer bastante carvão de choça. É aliás a propósito disso que relembra a polémica acerca da Rua das Liceiras no Porto, que uns querem ligada à cultura do linho, mas outros situam na relação da localidade ermesindense com o Porto, onde as mulheres iam vender o carvão.

    Foto Ursula Zangger. Capela do Senhor dos Aflitos.
    Foto Ursula Zangger. Capela do Senhor dos Aflitos.
    Os passeantes sobem então a Vilar, reencontram o lugar das velhas tradições teatrais dos Patriotas de Vilar, descem ao apeadeiro da Travagem, onde também recordam um antecessor do Rambóia no Enterro do João, o Malápio.

    A Capela do Senhor dos Aflitos é o próximo pouso. Aí, uma placa no exterior faz, curiosa e pertinentemente, uma referência à cultura do milho americano, base da riqueza ermesindense do século XVIII. A capela datará de 1756.

    Subindo em direcção a Sampaio, os caminhantes cruzam o rio Balsinha, num local em que Jacinto Soares chama a atenção, pois a montante ter-se-á preservado um nicho ecológico de grande valor e que deveria ser defendido. Depois os passeantes perdem-se na visita à oficina artesanal de bombos (e brinquedos) do senhor Aurélio.

    A inauguração do Euro2004 trouxe muito trabalho à oficina, que preserva a construção de bombos em pele (de coelho para os mais pequenos, mas com cada vez mais dificuldade em a obter, substituída então pela de cabra), e de cabra ou carneiro para as maiores (mas a pele de cabra é muito melhor, mais homogénea que a de carneiro). O senhor Manuel Gonçalves explica-nos os processos de fabrico, o tratamento da madeira, o seu encurvamento, a curtição da pele, mostra-nos toda a oficina, com espantosas ferramentas de madeira.

    Foto Manuel Valdrez. Oficina artesanal de tambores do Sr. Aurélio.
    Foto Manuel Valdrez. Oficina artesanal de tambores do Sr. Aurélio.
    A expedição recomeça a custo, com muito atraso. E segue para o fontanário da Prosela. Fala-se ali da cultura do fino linho e da sua importância, pois também era com tecidos provenientes do linho, como a estopa, que se vestiam os criados de servir das casas de lavoura.

    Descendo de novo para o Leça, procurámos a chamada Ponte das Tábuas, uma antiga travessia, de serventia agrícola, outrora de madeira que, posteriormente se substituiu por duas lajes.

    Mas a ponte está de cangalhas. O rio, mal saído da ETAR, a uns cem metros a montante, corre estranhamente espumoso, e não cheira a rosas. Mais à frente, para tornar tudo ainda mais negro, juntam-se-lhe as águas não tratadas do rio Gandra e corre assim, borbulhoso e colorado em direcção à foz. A ETAR, que era suposto poder tratar os efluentes de uma população de 100 mil habitantes, manifestamente, não o faz.

    Atravessando o rio, encontramos agora velhos moinhos, ao que se sabe já pertença do Centro Social de Ermesinde. O local imagina--se aprazível e deleitoso, sem aquela poluição que (literalmente) o esgota. Por ali, há poucas décadas, ficava a Praia dos Tesos. Conta-se que vinha gente de outros lados – nos arredores – a banhos para aqui

    A Resineira (o que resta dela, transferida para Campo), a ETAR, o ecoponto, tudo ali fica, mas há um não sei quê que os liga que faz temer que não sejam para breve os melhores dias.

    Caminhamos de novo em direcção ao centro da cidade, para terminar a visita, no que resta de uma velha casa de lavoura da família Caixa. Pendurados um arado, uma tarara, outras alfaias agrícolas recordam uma época que, parece, algumas pessoas ainda respeitam.

    Muito esclarecedor, este passeio à volta do Leça teve ainda o condão de ter contado com a presença dos dois candidatos à Junta de Freguesia de Ermesinde já conhecidos – Luís Santos, do Bloco de Esquerda, e Carlos Ricardo, do Partido Socialista, este último um potencial vencedor.

    Não temos dúvidas de que o passeio lhes terá sido muito proveitoso.

    Por: LC

     

     

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