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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 15-06-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    Profissões extintas

    Pela tardinha um toque a finados – nessa época nem era coisa rara, a aldeia ainda tinha muita gente – e, meia hora depois, outro – isto sim já era estranho, tanto que não me recordo de nenhuma outra situação igual. Depois da ceia, a minha mãe vestiu blusa e saia pretas, cobriu a cabeça com um véu da mesma cor e informou-nos de que iria às "Canelhas", um bairro a pouco mais de cem metros da nossa casa, velar o tio Vitorino e uma cunhada que tinha igual nome no feminino. Talvez por isso me recorde tão bem do acontecido, coisa estranha para um miúdo que deveria ter cinco ou seis anos por essa altura.

    O tio Vitorino era, se me permitem a forçada expressão, um fabricante de calçado rústico e de filhos, destes vingaram oito repartidos por igual entre sexos, sendo que, para arredondamento das contas, havia uma rapariga proveniente de outra forma; quanto ao calçado, obedecia aos modelos tradicionais: couro cru em pau de amieiro afeiçoado a golpes de enxó e de escopro.

    Ilustração Rui Laiginha
    Ilustração Rui Laiginha
    Os dois filhos mais velhos aprenderam a arte, ainda lembro o tio Abílio em casa dos meus pais a fazer socos abertos e fechados para todos os membros adultos da família, os primeiros para trazer por casa, os segundos para uso indiferenciado, incluindo a ida à missa ao domingo depois de limpos e untados com sebo. Instalava-se na sala, ao pé da janela, na companhia dos filhos, o Chico e o João, em roda da braseira, que esse trabalho fazia-se no Inverno quando a terra se encontrava coberta de neve ou encharcada, a impossibilitar amanho. Eu ficava embevecido a vê-los espetar as sovelas, a enfiar as cerdas e a puxar os fios enrijecidos com pez depois de terem pregado as palmilhas com cerzetas.1 Houve um ano em que pedi uns socos ao meu pai, desejo a que ele, embora contrariado, acedeu. Usei-os uma vez para ir à cidade, mas os meus pés protestaram tanto que o meu pai fê-los desaparecidos e nunca mais se falou no assunto.

    Como quase todas os mesteres rurais, o de sapateiro não era desempenhado com exclusividade. Nesse tempo, os "artistas" eram pagos em géneros porque não havia dinheiro e tudo era trocado por cestas ou arrobas de batatas, cântaros 2 ou almudes3 de vinho, alqueires 4 de cereal ou litros de azeite onde este se produzia. Cada qual tinha os seus chãos de renovo ou batata, leiras para centeio ou trigo, nem sempre lameiros o que impossibilitava manter animais de tiro e, em tais casos, era preciso compensar quem lavrasse as suas terras com jeiras de trabalho próprio ou de familiares. Os sapateiros que conheci eram gente pobre a quem o ofício permitia um tantinho mais de desafogo económico.

    Em pouco tempo, a importância da profissão esbateu--se, pelas rápidas transformações que se operaram nesses já distantes anos 50. Por força de lei e recomendação sanitária, acabaram as estrumeiras nos caminhos, surgiram as botas espanholas que, esporadicamente, alguém ia buscar ao outro lado da fronteira, ali bem perto e que exerciam certo fascínio entre a rapaziada pelo acabamento e pelo preço convidativo, quando a peseta valia quatro tostões, aumentaram as disponibilidades monetárias o que permitia adquirir, na cidade, calçado de melhor confecção para luzir nas festas da redondeza. A utilização dos socos diminuiu bastante e acabaram as empreitadas dos sapateiros em casa das famílias de maiores recursos. Os filhos do tio Abílio emigraram para o Brasil e, à morte dos então existentes, ninguém mais levantou o estandarte da corporação. Actualmente é pouco significativo o consumo dos outrora famosos tamancos.

    Deixaram de ter tão grande préstimo os amieiros, espécie arbórea muito abundante em toda a região transmontana, bordejando ribeiras, a sombrear lameiros. Ficou um apreciável espólio linguístico-poético e outras tradições que perpetuam o enorme contributo da espécie na sucessão de muitas gerações interioranas. Como exemplo, repare-se na ingénua irreverência popular de mistura com a tradicional religiosidade que distingue a gente nortenha:

    São Gonçalo de Amarante,

    Feito de um pau de amieiro,

    Irmão dos meus socos,

    Criado no meu lameiro.

    Provavelmente, em épocas remotas, dessa madeira macia se modelaram toscas imagens dos santos mais venerados. Dou fé de duas ou três estatuetas, que a menina Aninhas descobriu num velho gavetão da ermida de Santo Amaro, e tão má impressão lhe causaram que tratou de sepultá-las em vala comum na cortinha que circundava a capela, jamais revelando a sua localização.

    Mudam-se os tempos...

    1 Cerzeta – prego de pequena dimensão e de cabeça lisa.

    2 Cântaro – medida de 12,5 litros de líquido.

    3 Almude – o dobro da medida anterior.

    4 Alqueire – medida de 15 litros para sólidos, normalmente para cereais.

    Por: Nuno Afonso

     

     

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