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O Comerciante de Arte
Já a visitámos duas vezes - o nosso companheiro de cruzeiro, Renato, referia-se à catedral de Santa Sofia. - Vimos com alguma frequência a Istambul. Como já lhes disse, sou colecionador e comerciante de arte, e a pintura turca, especialmente a de alguns artistas mais vanguardistas, está a crescer na cotação internacional. Ontem, comprei uma dúzia de obras de pequeno formato. Se quiserem, podemos vê-las mais logo!
Estávamos com as respetivas mulheres, na sala do almoço, e o paquete deslizava pelo mar Egeu, de regresso a casa.
Depois de um digestivo, Renato e a mulher, Jennifer, mostraram-nos, então, as novas aquisições. Eram uns oito pequenos quadros figurativos de certa ingenuidade e uns cinco abstratos. Pareciam mais “souvenirs” baratos, do que obras de arte passíveis de transação de alto preço.
- Isto vende? - perguntei, sem esconder o desconforto.
- Ó Francisco, já vi que tem dificuldades com a arte contemporânea. Arte é o que o artista diz que é arte, e torna-se vendável o que o sistema mundial da arte reconhece como arte. Há um século que deixou de ser equivalente a belo. As elites anseiam por novidades. O diferente tem a venda quase garantida.
- Realmente, esperava outra coisa…
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| ILUSTRAÇÃO: RODOLFO BISPO |
- Este artista é ainda jovem e, com uma promoção adequada, pode vir a atingir bons preços no mercado. A arte pode ser encarada como um investimento, como outro qualquer. Há que estar atento às tendências, como um especulador vigia os movimentos da Bolsa. O segredo é comprar em baixa, se assim me posso exprimir. Neste caso, antes de o artista se tornar notado e a cotação dele disparar.
- O que eu faço - continuou Renato - é descobrir artistas pouco conhecidos, mas cujas obras se enquadrem numa tendência que esteja a crescer em aceitação. E invisto. Mais de metade dos quadros que viu irá parar a uma galeria que temos em Nova Iorque; os outros, ponho-os na de Lisboa e vou guardar um para a minha coleção pessoal. Vou ver como o público reage.
- Portanto - retorqui num tom ligeiramente crítico - a arte para si, afinal, não passa de um negócio!
- Gosto de arte, mas também vivo dela. É como um jogo, mas em que eu controlo alguns dos aspetos. Já viu estupidez maior do que a destas pessoas - íamos a passar junto à sala das “slot-machines” -, que pensam que podem derrotar uma máquina programada para as vencer? Eu exponho em feiras de arte e promovo o meu investimento, com notas para a imprensa especializada e catálogos escritos por especialistas que sabem encontrar as virtudes de qualquer obra de arte, como faz um administrador ao anunciar os resultados trimestrais da sua empresa.
- Não estou a perceber!
- O que eu quero dizer é que o que parece lógico pode não refletir a realidade. Os gostos mudam e há que estar atento aos movimentos da sociedade. E talvez ajudar o gosto a mudar…
Dois dias depois, em Roma, fizemos, os quatro, o passeio sugerido por Renato. Vimos o
(...)
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Por:
Joaquim Bispo
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