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Valongo: Ode ao trajar do concelho (Parte 1)
A indumentária tradicional do concelho de Valongo não constitui um sistema estético hermético, mas sim um complexo painel etnográfico que espelha a sua condição de território de transição no contexto da província do Entre Douro e Minho.
Quem olha para a diversidade de texturas, cortes e cores do trajar tradicional de Valongo percebe que o concelho funciona como um autêntico ponto de encontro, uma simbiose de regiões que ora estão afastadas, ora se complementam. Geograficamente moldado por vales e serranias, o território valonguense absorveu influências diretas das regiões vizinhas.
O trajo local não se fecha em si mesmo: ele desenha uma linha perfeita de transição onde a vivacidade do Baixo Minho Interior toca a proximidade mercantil da Maia e do Baixo Minho (Vales do Leça e do Ave). Compreender o trajo de Valongo exige, por isso, viajar por estas duas grandes correntes que moldaram a identidade das nossas gentes.
Nas freguesias mais orientais do concelho, como Sobrado e São Martinho do Campo, o trajo reflete a ligação umbilical ao Minho Interior e ao Vale do Sousa. Aqui, o isolamento geográfico relativo das serras e a forte tradição das festividades (como a ancestral Festa de São João de Sobrado) permitiram a fixação de um vestuário com maior carga ritualística e decorativa.
Ao contrário do trajo de labor diário, o trajo de festa destas zonas adota a exuberância minhota. As saias de lã ou briche (um tecido de lã forte e pesado, ideal para suportar o inverno rigoroso das encostas) ganham um rodado imponente, muitas vezes debruadas com fitas de veludo preto. Os aventais deixam de ser meros panos de proteção e passam a ser peças de orgulho, ornamentados com ricos bordados à mão ou tecidos em teares caseiros, às vezes com padrões geométricos complexos.
A influência do Minho interior é notoriamente visível no brio da mulher ao “domingar”. O parco ouro que tem é colocado de forma a abrilhantar a indumentária e a valorizar a mulher. O lenço de cabeça, em vez de ser discretamente atado para o trabalho, é colocado de forma altiva, com cores vibrantes onde o amarelo e o vermelho espreitam, emoldurando o rosto com franjas que dançam ao ritmo do andar. O trajar masculino destas freguesias bebe da mesma solenidade. O colete de veludo preto com botões de metal reluzentes, as camisas de linho meticulosamente brancas com punhos bordados e a jaqueta curta de feição lavradeira demonstram uma forte ligação à identidade festiva e orgulhosa do interior.
Ricardo Miguel Oliveira*
* Presidente da ASPRECA e Diretor Técnico do Grupo de Danças e Cantares de Alfena e do FestINvallis – Bienal Internacional de Folclore da Cidade de Alfena
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