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Encontro de palavras
A realização de uma obra literária é algo complexo como estado criativo, inicia-se mesmo antes de ser escrita. As palavras encontram- se em círculo num processo mental, a maior parte das vezes durante a noite, não permitindo um sono tranquilizador. Aproveitam as fragilidades, os desequilíbrios da mente positivos ou negativos na luta e atropelo constante de ideias, bem como na sua comunhão e inconstância.
A escrita baseia-se na minuciosa e espontânea observação intuitiva, mais das pequenas do que das grandes coisas. É como o Portugal dos pequeninos para as crianças. Além disso vive dos sonhos e da ansiedade que só a mente controla. As palavras roubam o nosso tempo de descanso para se espraiarem e brincarem aos versos, às rimas e às estrofes, como os pequeninos nas ondas do mar. Sobem e descem de tom, perdendo- se na sua própria sonoridade. Os versos vivem da alegria, da miséria, da violência, do sol, da partilha e do amor, enfim de todos os estados de alma sempre em vigília e frequente estado acutilante. Aproveitam-se das palavras confusas ora agrupando-as ora dispersando-as em turbilhão.
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Por vezes e quando caminhamos ao longo duma rua citadina ou rural, repentinamente interrompemos a marcha para que o nosso “consciente-inconsciente” retenha aquela cena, transladando-a para um lugar mais seguro e permanente: a escrita narrativa. Aí encontra o repouso e a meditação necessária antes de se tornar “Maior”.
Presente em uma reunião literária ouvi de um fazedor de versos que não é ele quem os escreve, mas sim as suas mãos. Do que ele se esqueceu foi que as mãos são a concretização final da labuta mental da escrita, a verdadeira mestra.
Não existe solidão para o ser humano, o pensamento e as formas de o concretizar sempre o acompanham, modelando a expressão corporal. As personagens passeiam-se à frente dos seus olhos ora orgulhosas ora debochadas, troçando dos poetas e fazendo deles carrascos, deuses, etc.
É nosso dever manter a ancestralidade da habitual forma de escrita respeitando as gerações. De braços abertos recebemos toda a evolução tecnológica, mas não nos deixemos arrastar pela tentação da enganadora facilidade: a inimiga da nossa própria criação.
Por:
Eugénia Ascensão
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