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Edição de 30-11-2022
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    Arquivo: Edição de 31-12-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    E depois do adeus…

    A época natalícia despoletou a necessidade de refletir sobre os que não teremos ao nosso lado na ceia de Natal. Até eu, que por norma e por mania ando sempre de nariz empinado a olhar para o sol e deixar momentos menos bons para trás, este ano sinto uma carga mais pesada em relação a esta época festiva – perdi mais gente do que queria e isto ao fazer o balanço das pessoas de família e conhecidos que a vida ceifou. Ainda, nas redes sociais, vou encontrando as fotos de identificação de amigos e conhecidos substituídos por pequenos símbolos onde, junto a um laço preto, leio: “em luto”.

    Claro que não duvido que nesta noite, cada um de nós irá sentir ao nosso lado uma “cadeira invisível” onde estarão sentados ao nosso lado os que nos tocaram de perto: com uma vida traduzida num colo, num sorriso, num amuo, numa dor, em tristezas e alegrias, doseadas conforme a maneira de ser de cada um. Ainda, penso que neste momento (por ser especial e às vezes poder ser vivido somente num dia), até os “proscritos”, que a vida, os padrões sociais e muitas vezes a voz da razão nos manda adotar como atitude de bom senso afastar, por maior que seja o nosso “disfarce”, não iremos conseguir banir do nosso pensamento. Quanto a mim (que acredito em coisas às vezes incompreensíveis para o senso comum), continuo a acreditar que estarão lá, a ocupar o lugar que não nos esqueceremos de lhes destinar, naquele cantinho do coração que, por ser do tamanho do mundo, é de “lotação ilimitada”.

    Quando as perdas são recentes e de pessoas muito chegadas, tão chegadas que às vezes dariam a impressão de estarem coladas à nossa pele, a pergunta que cada um faz a si mesmo é “como vou conseguir superar esta perda?”. Aqui a resposta mais viável só poderá ser: “sendo forte, porque esse é o único caminho” e isto para quem enfrenta todo o tipo de luto – os que partem da vida, os que partem para construírem novas vidas e os que escolhem vidas, que a vida descruza das nossas. Aqui, também cabem os que enchem as cadeias, os que enchem os albergues, os que enchem lares de acolhimento e sabe Deus quem mais. A força que cada um de nós tem que suportar em “lutos” interiores (que tomam a forma de solidão e de saudade), acarreta muitas vezes um peso superior ao do nosso corpo – a diferença terá a ver somente com a postura curvilínea ou elevada com que se cada um se faz à “estrada da sua vida”.

    Mesmo que apoiados na retaguarda, a forma como superamos as nossas “perdas”, a forma que temos de nos “despedirmos” do que nos fez bem e até do que nos fez mal é particular a cada um. O mesmo se aplicará ao tipo de atitude que adotarmos para o “depois”, aquele que virá a seguir ao “adeus” e da capacidade de manter viva a chama do ensinamento que as vidas que por nós passaram nos deixaram como legado. Vamos entrar em 2014 e dizem que até da “Troika” nos iremos despedir. Como se diz que “adeus” é para quem morre mas, porque sou reticente quanto a isso, acrescento o facto de não “embandeirar em ilusões” festejando antecipadamente esta incerteza, pois tenho consciência que o augurado “adeus troikiano” não significa que nos vamos livrar tão cedo da hecatombe que nos invadiu.

    Cética, estava a apetecer-me, também a mim, vestir o “capote do desânimo” e nem este apontamento ficaria registado. Efetivamente, há momentos em que as cargas se tornam muito pesadas porque somamos demasiados “adeus” daquilo que pensamos não voltarmos a recuperar – os nossos e os que assistimos nos outros, quer seja o “adeus“ a pessoas, a casas que se compraram ao abrigo de sonhos, a hábitos que serviram para unir famílias, a laços que se quebram por não resistirem ao infortúnio, etc..

    Já me deixava conduzir, também eu, para o grupo dos que “partem, sem partir”, se não tivesse descoberto de repente que “adeus” realmente nem sempre é para o que morre e também para quem morre. Percebi isso quando entrei numa farmácia e encontrei uma “banquinha da solidariedade” – o objetivo era o mesmo que me fez cruzar tempos atrás com a “Acreditar”, quando me fez perceber que ainda acredito em tanta coisa.

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    Uma jovem falava-me da Inês – uma menina que a leucemia levou aos 12 anos de idade e que tocou as pessoas pela sua força e pela sua luz. Terão sido de tal forma intensas que a dor e a solidão que uma partida destas deixa foram superadas e substituídas por uma causa: a criação da “Associação Inês Botelho” como forma de homenagear a “nossa filha, irmã”, conforme li num pequeno flyer que me foi entregue no âmbito da sensibilização para a doação de medula óssea. Percebi que em sua honra, as tais pessoas que ela tocou de perto juntaram-se à sua família e todos encontraram uma forma de manter viva a sua imagem, depois do adeus – ajudarem na luta contra o cancro infantil e desta forma «…levarem o “sorriso da Inês” a todas as crianças que, tal como ela, têm que lutar, quando deviam brincar e têm que abdicar da sua infância mais cedo do deveria ser permitido…», conforme também lá estava escrito.

    Se a vida permitir que me despeça de 2013, no depois, para 2014, quero concretizar o pedido feito pela neta de uma mulher de 1919 e entregar-lhe um dossier com todos os pedacinhos de escrita que encontraram quando partiu recentemente. Eles ainda não sabem que ao organizá-los percebi que era isso que ela queria, depois do “adeus” – está lá todo um exemplo de coragem que pode inspirar a sua família em momentos menos bons que os possam surpreender. Também quero levar comigo tudo o que representa o “sorriso” de causas como a da Inês, antes e depois do “adeus” e que eu traduzo em duas palavras: solidariedade e coragem, e toda a que seja necessária para enfrentar o que virá por aí. Por fim, quero levar outra grande lição que aprendi do que li, algures – a morte não é a maior perda da vida, pois a maior perda da vida será o que morre dentro de nós, enquanto vivemos.

    Por: Glória Leitão

     

     

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