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Edição de 31-12-2019
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    Arquivo: Edição de 20-09-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    Aqui d''El-Rei!

    Serão os efeitos da crise económica que fazem lembrar os tempos idos?! Magia não é.

    Quando, à lareria, após a ceia, se ouvia o vento zoar nas telhas e chaminé, levava a avó Ana, tratada, carinhosamente, por mãezinha, a interromper os seus contos e ditos, pelo fumo e choinas saídos da entrada para a chaminé; o serão parecia um filme com efeitos especiais!

    Foi à volta do lar que ouvi arrepiado, à luz mortiça do candeeiro, com os ruídos noturnos de uma casa de lavoura, e do chiqueiro dos porcos por perto, contar “A Esperteza da Velha”! Cheguei a sair do colo do pai a fim de ir à porta das escadas ver se o povo chegava para apanhar o ladrão, escondido debaixo da cama! Jamais voltei a ouvir tais pedidos de socorro...

    É preciso chegar ao século XXI e quase a ter bisnetos, e assistir a uma crise económica forte no nosso Portugal, para lembrar, novamente, um “Aqui d’el-Rei”!

    Na rua onde moro, em Paranhos (Porto), talvez por ser nova, larga e bem iluminada, os assaltos e roubos nos carros estacionados são poucos, e até um camião TIR pernoitava em fim de semana...

    Quem tem uma cadelinha para passear na rua e zonas verdes notou a ausência do TIR parado.

    – As baterias eram roubadas! – informou a Estrela, companheira nos passeios caninos.

    Ao encontrar o Sr. Orlando, enquanto o seu cão, velhinho e pesadote, aproveitava para se sentar no passeio, informou:

    – Aqui na rua começaram os roubos das baterias dos carros estacionados ao relento e o rebentar e levar dos pequenos portões do passeio, antes dos jardins de entrada!

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    Fui ver. Era incrível!

    Necessário se torna dizer: a mesma rua faz um ângulo reto, e nas moradias onde mora o Sr. Orlando é mais estreita e atafulhada de carros nos passeios – mais furtos, portanto.

    Tenho o privilégio de ter por perto as matas da quinta do Covelo e, ainda, alguns terrenos agrícolas onde os milheirais e os nabais se renovam (este ano poucos). Têm toscos muros, para os passeios da rua, protetores da invasão dos campos, e são recobertos de capas de cimento. E o que vi?! Destruídas a cinzel para roubar as varinhas de ferro de muro rematado!

    – Isto é que vai uma roubalheira – afirmou o Armando, habituado a guardar a chave da sua casa duriense, em buraco da parede, quando era pequenito, e pessoas a pedirem licença de entrada, no fundo das escadas granítico-xistosas, para subirem até à porta; e, agora, ser assediado pelos vendedores de novas tecnologias na entrada do seu andar!

    Estava longe de vir a encontrar o Afonso, discípulo de outros tempos. A conversa foi apetitosa, mesmo no passeio de rua! Quando chegou à desgraça de ouvir que andava à procura de emprego, antes de ter que emigrar, pois a carpintaria onde trabalhava faliu, dei-lhe um abraço e entrei no carro triste. Antes de arrancar, o Afonso vem ao automóvel e diz:

    – Tem uma moedinha?

    – Aqui d'el-Rei! Tirem-me deste filme!..

    Por: Gil Monteiro

     

     

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