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Edição de 30-09-2026
Jornal Online

SECÇÃO: Destaque


REUNIÃO DA ASSEMBLEIA DE FREGUESIA DE ERMESINDE

Grito de revolta: população unida contra o mau cheiro exige respostas imediatas das autoridades

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O problema dos maus cheiros que afeta várias zonas de Ermesinde dominou por completo a última sessão da Assembleia de Freguesia, realizada na noite de 23 de setembro último. Num ambiente de forte contestação, algumas dezenas de moradores concentraram-se junto às instalações da Junta de Freguesia para exigir soluções imediatas para este problema. A mobilização popular coincidiu estrategicamente com o arranque dos trabalhos da Assembleia. O protesto traduziu-se numa forte presença de público no Salão Nobre da Junta, com os fregueses a fazerem ouvir a sua indignação perante os eleitos locais. Os moradores queixam-se de que os odores nauseabundos se tornaram insuportáveis e exigem a identificação clara da origem do problema, bem como medidas concretas para solucionar o mesmo.

No período destinado à intervenção do público, Ângela Ferraz foi a primeira freguesa a intervir, começando por responsabilizar diretamente o PS e o PSD pelo estado do ambiente em Ermesinde, apontando a saturação da ETAR e a degradação do Rio Leça como resultado de décadas de falta de investimento. Recordou que no mandato anterior e enquanto eleita pela CDU na Assembleia de Freguesia de Ermesinde (AFE) foram feitos avisos de forma persistente de que a ETAR necessitava de obras e de fiscalização, «mas a prioridade foi deixar o povo contente com árvores de Natal e bandeiras nacionais brutais», acrescentando que a questão central que ali se discutia, ou seja, o estado do ambiente em Ermesinde, «não é só visível na degradação dos canteiros, com pouca diversidade de plantas e os quais passaram a ser canteiros de pedra branca; ou na deficitária recolha dos resíduos urbanos atribuída aos privados; mas também na ausência de uma visão de política de futuro». «A entubagem dos pequenos ribeiros que outrora existiram em Ermesinde, a falta de fiscalização e responsabilização dos prevaricadores que fazem descargas no Rio Leça e a inexistência de uma ação séria e consertada resultaram na situação em que hoje nos encontramos» disse a freguesa, que mais adiante e em relação à ETAR frisaria que esta unidade se encontra a trabalhar muito acima da capacidade projetada, o que na sua visão comprometia o tratamento adequando dos afluentes antes de serem descarregados no Rio Leça, um curso de água que nas suas palavras «ao longo da última década tem sido alvo de sucessivos anúncios de investimento, mas a distância entre o dinheiro efetivamente gasto e aquele que fica apenas prometido é reveladora». Ângela Ferraz questionou ainda o presidente da Junta sobre as pressões que este tem exercido junto do governo e da autarquia para viabilizar a despoluição e a recuperação da referida linha de água.

Seguiu-se o freguês João Pinto, residente nas proximidades ETAR, e que relatou que a situação dos maus cheiros se arrasta desde o passado mês de julho, afirmando que «não há um único dia» em que a população não seja afetada pelo odor nauseabundo. João Pinto descreveu o ambiente como «insuportável» e revelou o forte impacto na sua vida pessoal e familiar, lamentando o facto de os residentes estarem privados de conviver ou receber visitas. «Não conseguimos chamar amigos ou família. É uma situação muito desagradável para nós», desabafou, classificando esta como uma situação «inaceitável em pleno século XXI». Terminaria a sua intervenção com um apelo direto e urgente aos eleitos locais: «tratem da situação o quanto antes. É preciso pensar numa solução para ontem».

Por sua vez, o freguês Rogério Monteiro, morador em Ermesinde há um ano e meio, juntou a sua voz aos protestos dos cidadãos na AFE, relatando a impossibilidade de permanecer dentro da própria casa devido à intensidade do mau cheiro registada. O residente sublinhou o desconhecimento da proveniência dos cheiros, mas exigiu conhecer a razão dos mesmos.

Jaime Azevedo interveio de seguida para dar voz à contestação geral e exigir respostas urgentes aos documentos já enviados à Junta pelos residentes sobre este tema dos maus cheiros. «Há demasiado tempo que os moradores das zonas envolventes da ETAR de Ermesinde e de Alfena convivem com odores intensos e insuportáveis, odores que nos impedem de abrir as janelas e que nos impedem de estar nas nossas casas e jardins. Queremos deixar uma mensagem muito clara: isto não é normal, isto não é aceitável e isto não pode continuar», começou por dizer o freguês. Deu ainda nota de relatos de queixas de moradores sobre a proliferação de ratos, baratas e outras pragas, com especial destaque para a presença de mosquitos de dengue na zona do Moinho do Panelas. Questionou diretamente quem são os responsáveis pelo problema e o que está na sua origem. Sublinhou que «viver com dignidade não é um privilégio, é um direito» e exigiu que a Junta de Freguesia de Ermesinde (JFE), a Câmara Municipal de Valongo e a entidade gestora da ETAR assumam o problema publicamente e apresentem aos moradores um plano de intervenção concreto.

Na sequência destas intervenções, o presidente da JFE, Miguel de Oliveira, assumiu uma postura de total solidariedade com todos os ermesindenses que têm sofrido com estes odores que têm assolado a cidade, frisando que estes têm toda a razão em exigir respostas. «E podem ter a certeza que eu enquanto presidente de Junta, bem como todo o executivo, todos nós nos sentimos afetados por este problema. É miserável que em 2026 nos tenhamos de deparar com problemas de maus odores dentro das nossas habitações. É meu entendimento que Ermesinde já pagou a sua fatura de maus cheiros há uns anos atrás quando tinha a Fertor», destacou o autarca que admitiu mais adiante não conseguir precisar de forma concreta de onde provêm os odores, mas opinou ter dúvidas de que sejam provenientes de um único local, ou que tenham apenas um foco. Esclareceu que as Juntas de Freguesia não têm competência direta para resolver este tipo de problemas, mas sublinhou que o dever destas autarquias é exigir soluções. Nesse sentido garantiu que o executivo por si presidido tem pressionado diariamente as entidades competentes para que sejam obtidas respostas técnicas validadas no sentido de resolver este problema «não para amanhã, mas para ontem». Recusou partidarizar o assunto, definindo-o como uma causa da «casa comum que é a cidade de Ermesinde». Como passos imediatos, anunciou que iria levar esta exigência de viva voz à sessão imediata da Assembleia Municipal de Valongo, a ter lugar na segunda-feira seguinte (dia 28 de setembro e já numa altura em que a presente edição do nosso jornal estava fechada), garantindo que se «for preciso ir a Lisboa, junto do Governo, também irei». «O problema tem de ser identificado e resolvido rapidamente», rematou o autarca.

Nota de redação: na sequência na denúncia efetuada na reunião pública da Junta de Freguesia de Ermesinde do passado dia 16 de setembro, em que o membro do executivo, Armindo Torres Ramalho, apresentou um trabalho realizado por quatro ermesindenses que no terreno colocaram a descoberto um problema ambiental e de saúde pública com contornos preocupantes, do qual damos conta nas páginas anteriores, o nosso jornal questionou, no dia 22 de setembro, a Be Water se esta havia tido conhecimento deste trabalho de campo efetuado e desta posterior denúncia pública. E em caso de resposta afirmativa o que a empresa responsável pela ETAR de Ermesinde e de Alfena pensava fazer, ou já estava fazer, no sentido de solucionar ou minimizar este problema. Porém, e até ao fecho da presente edição não nos chegou qualquer resposta por parte da empresa.

 

 

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