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REUNIÃO DA JUNTA DE FREGUESIA DE ERMESINDE
Armindo Torres Ramalho denuncia poluição com gás inflamável na Ribeira da Gandra
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| Fotos MIGUEL BARROS |
A reunião do Executivo da Junta de Freguesia de Ermesinde (JFE), realizada no dia 16 de setembro, ficou marcada pela denúncia do vogal Armindo Torres Ramalho de uma situação que o mesmo considerou previamente de «particular gravidade e que poderá estar relacionada com um dos principais focos de poluição existentes na nossa cidade, bem como com os odores nauseabundos que, com frequência, se fazem sentir em Ermesinde». Pois bem, na sessão pública da Junta, o vogal eleito pelo PSD usou da palavra no período destinado à intervenção dos membros do executivo para apresentar um trabalho rigoroso desenvolvido por quatro ermesindenses – um deles especializado tecnicamente na área do ambiente – que no terreno colocaram a descoberto um problema ambiental e de saúde pública com contornos preocupantes.
Munido de suporte documental e vídeos que mostraram e explicaram os resultados deste trabalho de investigação, Armindo Torres Ramalho apresentou registos que expõem descargas ativas e fontes de contaminação na Ribeira da Gandra e que posteriormente se constituem como um foco de poluição da bacia do Rio Leça. O vogal do PSD explicou passo a passo e de forma detalhada o trabalho de campo realizado por estes quatro ermesindenses, «que devidamente equipados e utilizando um ponto de acesso existente, precisamente para tentar perceber uma realidade que, à superfície, não é possível compreender totalmente» observaram condutas, estruturas hidráulicas e pontos concretos de descarga. Foram feitos registos fotográficos, vídeos e análises técnicas que foram agora tornados públicos e que atestam a presença de um gás extremamente tóxico e inflamável denominado de H₂S. «No dia 24 de agosto, foram realizadas medições de sulfureto de hidrogénio (H2S) em quatro pontos da rede de águas pluviais, tendo sido detetados valores entre 10,3 e 17,6 ppm, com uma média de cerca de 14 ppm», começou por revelar o vogal social-democrata, explicando que dois desses quatro pontos de medição foram efetuados na Rua da Gandra, onde foram obtidos resultados de medição de 10,3 ppm e 13,8 ppm; na Rua de Luanda, onde foi obtido um resultado de 14,2 ppm; e na Praça 1.º de Maio, onde se obteve um resultado de 17,6 ppm. Abrir um parêntese para explicar que ppm é uma unidade de medida usada para expressar concentrações extremamente pequenas de uma substância (como o gás H2S) dispersa noutra (como o ar que respiramos). Nos vídeos que foram apresentados foi possível ver a presença na referida linha de água de papel higiénico, de matéria orgânica, ou de dejetos humanos. Poluição esta que vai parar ao Rio Leça.
Ainda no seguimento desta explanação técnica, Armindo Torres Ramalho explicaria que o H2S é um gás tóxico, inflamável e conhecido pelo seu forte e característico odor a ovo podre. «A Ribeira da Gandra possui centenas de boeiros à superfície, mas apenas quatro foram analisados. As concentrações de H2S podem variar consoante o vento, temperatura, chuva, caudal e ventilação da rede, pelo que estas medições representam apenas uma fotografia daquele momento. Aqui poderá estar uma das explicações para o intenso odor a “ovos podres” sentido na cidade. A presença de H2S na rede levanta a possibilidade de o gás estar a ser libertado através dos numerosos boeiros e dispersado pelo ambiente. Só uma avaliação técnica poderá confirmar esta relação», referiu Ramalho. Perante o cenário ali retratado, o eleito pelo PSD frisou «ser necessária uma investigação urgente da rede, com medições em diferentes locais e condições, para identificar a origem do gás e avaliar as condições de segurança. Não está apenas em causa o mau cheiro: estamos perante a deteção de um gás tóxico e inflamável numa infraestrutura urbana».
Ainda antes da apresentação deste enquadramento técnico, Armindo Torres Ramalho mostrou a sua indignação pelo facto de no mesmo dia em que iria ser feita por si publicamente esta denúncia, a Câmara de Valongo ter anunciado na comunicação social um plano de ação para identificar e eliminar ligações indevidas ao Rio Leça, cujos trabalhos, de acordo com a autarquia, terão início em outubro próximo. Nesse anúncio público, de que o nosso jornal dá conta na página ao lado, o presidente da Câmara afirmou que «não queremos ficar à espera que outros descubram os problemas do Leça por nós. Queremos ir ao terreno procurar as causas, identificar as situações concretas e atuar sobre elas». Pegando nestas declarações do edil valonguense, Armindo Torres Ramalho atirou em tom de resposta: «Pois não, presidente. Não precisam de esperar, basta seguir a oposição. Nós denunciamos, vocês aparecem depois. É uma dinâmica curiosa: primeiro a oposição trabalha, depois o executivo acompanha».
Ainda a propósito desta questão ambiental em torno do Rio Leça, o vogal da JFE recordou que já em 2014 o então presidente da Câmara Municipal de Valongo, José Manuel Ribeiro, havia anunciado uma obra para a proteção e despoluição do rio, e que em 2017 voltou a ser reassumida publicamente pelo então edil. «O que é certo é que nada se fez», atirou Ramalho.
SEIS DESCARGAS DE EFLUENTES REGISTADAS EM AGOSTO
Ainda sobre o Rio Leça, o eleito do PSD no executivo da Junta deu nota de outra situação que sustentou com documentos que posteriormente fez chegar à comunicação social. Ramalho disse então que entre os dias 7 e 30 de agosto ter-se-ão registado seis bypass hidráulicos para o Rio Leça. De forma muito sucinta, importa explicar que um bypass são efluentes que saem diretamente para o rio. Alguns destes bypass, nas palavras do vogal, demoraram seis horas. Como já dissemos, Armindo Torres Ramalho suportou esta sua denúncia com documentos das comunicações destas descargas e outros comunicados emitidos pela empresa Be Water à APA, documentos estes que fazem alusão a quatro dessas seis ocorrências – mais concretamente aos dias 7, 11, 24 e 25 de agosto.
Após a extensa e detalhada intervenção de Ramalho, usariam da palavra outros elementos do executivo. António José Pinheiro, eleito pela Iniciativa Liberal (IL), ressalvou que estamos perante uma situação que a todos preocupa e que interessa que seja devidamente resolvida e identificada, colocando de seguida algumas questões sobre o que ali tinha sido apresentado pelo eleito do PSD, entre outras: qual era concretamente a origem da situação denunciada e que elementos técnicos permitiam estabelecer esta relação, desde quando Ramalho teria conhecimentos destes factos, ou que entidades competentes teriam sido já formalmente informadas destes factos. Armindo Torres Ramalho mostrou-se um pouco incomodado com «este tipo de inquisição», como expressou, do membro da IL, acrescentando que este foi um trabalho feito a título individual, pois «somos livres e vivemos num estado de direito, e quando temos uma suspeita temos de ir para o campo», dando nota mais adiante de que já havia dado conhecimento deste trabalho à APA a 9 de setembro passado.
MIGUEL DE OLIVEIRA CONCORDA COM O CONTEÚDO MAS NÃO COM A FORMA
Também o presidente da JFE, Miguel de Oliveira usaria da palavra para comentar este trabalho apresentado pelo vogal do PSD, ressalvando antes de tudo que não divergia do conteúdo, mas sim da forma como o mesmo foi exposto. Refira-se que Armindo Torres Ramalho havia na véspera desta reunião enviado um convite aos meios de comunicação social para marcar presença na sessão no sentido de tornar pública uma situação de «particular gravidade», um convite que foi replicado publicamente nas redes sociais de igual forma à população em geral. «Eu discordo da forma, do alarmismo, mas não deixo de considerar que esta informação é relevante. Quero reconhecer claramente o contributo que o Armindo e os outros três ermesindenses deram, identificaram esta situação e trouxeram-na para a discussão. E se há informação que pode ajudar a identificar uma fonte de poluição no nosso território essa informação é importante, venha ela de onde vier. E se esse trabalho contribuir para acelerar algum tipo de respostas melhor ainda. O mérito que houver nesse contributo por mim será sempre reconhecido. Agora, uma coisa é reconhecer esse contributo, o que é inegável, outra coisa muito diferente é aceitar a ideia que até aqui ninguém estava preocupado com o rio. Todos nós estamos preocupados com o rio», disse o presidente da Junta, acrescentando que não concordava com a ideia de que até ali nunca ninguém questionou ou procurou respostas para o problema do Rio Leça e que tudo começava naquela noite. Referiu a este propósito que anteriores autarcas em anteriores mandatos, independentemente do partido político que fosse, olharam para esta problemática do Rio Leça, dando como exemplo o facto de o processo de ampliação da ETAR ser muito anterior a estes acontecimentos agora divulgados. A este propósito da ampliação da ETAR de Ermesinde/Alfena, Miguel de Oliveira disse ter a certeza de que é fundamental que as obras de requalificação e ampliação da Estação de Tratamento de Águas Residuais arranquem o mais urgentemente possível. O autarca disse ter o compromisso de que esta obra iria arrancar no primeiro trimestre do próximo ano. Adiantou ainda que havia tido o compromisso do presidente da Câmara para que em colaboração com as Águas de Valongo fosse disponibilizado o equipamento robótico para fazer a vistoria aos canais onde está entubada a ribeira.
Tendo em conta que os dados obtidos para a realização deste trabalho apresentado por Armindo Torres Ramalho foram recolhidos a 24 de agosto, Miguel de Oliveira defendeu ainda que toda esta informação agora divulgada nesta sessão pública deveria ter chegado o mais rapidamente possível às entidades competentes nesta matéria. «Acho que esta informação podia ter sido enviada rapidamente à CMV, às Águas de Valongo, à APA, à ERSAR e a todas e quaisquer entidades ambientais para começar logo a procurar a origem do problema. Eventualmente algumas etapas já podiam estar inclusive ultrapassadas, e é só isto que me custa nesta situação e não o facto de alguém ter encontrado um problema. Que os encontrem a todos, que nós cá estaremos para ajudar a resolvê-los», disse o líder do executivo que mais adiante e no seguimento desta linha de raciocínio pediu não só a cada elemento do executivo como à população de Ermesinde em geral para que sempre que tiverem conhecimento de uma situação deste género que a partilhem imediatamente, pois «há assuntos em que ganhar tempo é mais importante do que tudo».
A terminar a sua intervenção, Miguel de Oliveira voltou a dar conta do seu reconhecimento a este trabalho realizado pelo vogal do seu executivo, ressalvando a necessidade de se chegar o mais rapidamente possível à origem do problema. «O que é importante agora é muito simples: que comecemos a trabalhar sobre aquilo que agora sabemos, exigir responsabilidades às entidades competentes e procurar resolver este problema. Esse é o meu foco e estou certo que é o foco de todo este executivo. E estou certo também que é isso que a população de Ermesinde nos exige a todos, que coloquemos Ermesinde sempre em primeiro», vincou o presidente da JFE.
Por:
Miguel Barros
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