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Um buraco escuro
Nunca foi apurado de onde partiu o primeiro disparo. As potências em conflito acusaram-se mutuamente, enquanto foi possível ouvir rádio. Só se percebeu que, em poucas horas, foram disparados alguns milhares de mísseis regionais e intercontinentais, portadores de bombas nucleares, de um lado e do outro do Atlântico. Grande parte foi travada pelos sistemas de interceção, mas as explosões aconteceram na mesma, só que em altitude. À medida que os satélites adstritos ao uso militar foram sendo derrubados, os mísseis passaram a usar sistemas de navegação incorporados, o que lhes baixou sensivelmente o grau de precisão.
Havia semanas que Eneias punha a eventualidade da guerra nuclear como muito possível. Percebia os apelos armamentistas, a retórica de confronto, a escalada bélica em crescendo. Quando o clarão apocalíptico acendeu o dia, estavam na casa de Silvares.
As notícias, das poucas rádios em funcionamento, eram alarmantes. Boa parte do leste dos Estados Unidos tinha sido destruída, assim como todo o ocidente da Rússia e variadas zonas nuclearizadas no resto do Mundo. Milhões de toneladas de cinzas radioativas subiam na atmosfera e toldavam o sol. Eram horríveis os relatos das destruições e do estado dos corpos dos que ainda sobreviviam.
Uma obscuridade estranha foi crescendo até transformar-se numa escuridão densa, que se tornaria a companheira diária. Ainda nessa tarde começou a cair muita cinza; radioativa, provavelmente. Tinha um cheiro fétido, um misto de plástico queimado, com reverberações olfativas metálicas. Eneias tinha consciência de que cada inalação que permitisse representava um foco de radiações a destruir o seu ADN, a facilitar cancros. A temperatura baixara abruptamente e todos os dias foi baixando mais. Juntaram a lareira aos aquecedores, mas nada conseguia aquecer a casa.
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| ILUSTRAÇÃO @RODOLFO.BISPO77 |
As poucas notícias da rádio descreviam um mundo caótico. Um pouco por todos os continentes, os saques, o morticínio de grupos demonizados, os levantamentos militares, as revoltas populares estraçalhavam o que restara. Regimes oportunistas de todos os quadrantes surgiam e desapareciam no mesmo dia. A energia elétrica faltou de vez ao fim de três dias. Nem o rádio de pilhas dava sinal. A sociedade desmoronava-se.
A casa já não era porto seguro. As cinzas tomavam tudo. Não era possível colher vegetais enegrecidos e “queimados” pela radiação, não era aconselhável consumir qualquer animal, qualquer ser exposto às cinzas. Viviam de conservas. O frio tornava-se debilitante. O “inverno nuclear”, teorizado pelos cientistas, confirmava-se. Sem luz solar, as plantas iriam mirrando e a maior parte morreria em poucas semanas ou meses. E a morte das plantas faria ruir toda a cadeia alimentar. Havia que engendrar uma maneira de sobreviver. E ousar partir para melhor refúgio.
Foi a proximidade das minas da Panasqueira que iluminou o espírito de Eneias. A temperatura em minas é baixa, mas constante. Lá não chegariam poeiras radioativas, lá poderiam captar água não contaminada, lá poderiam cultivar cogumelos.
Passaram seis anos desde que Eneias chegou às minas. A comunidade de uns cem refugiados que lá foi procurando refúgio passou a chamar-lhe Lote, por ter chegado com duas filhas, depois de um bombardeamento, como no episódio bíblico.
Havia duas fontes nas galerias da mina. Tinham esperança que os
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Por:
Joaquim Bispo
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