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Edição de 30-11-2025
Jornal Online

SECÇÃO: Crónicas


foto

O segredo do retrato de Mário Soares

O visitante comum que percorra a galeria de retratos do Museu da Presidência encontra o que espera: um enfileiramento de grandes retratos de figuras sisudas, solenes, um pouco ameaçadoras até, dos presidentes da República Portuguesa.

Então, surge-lhe o retrato de Mário Soares, que rompe com a lógica hierática dos retratos e choca violentamente com as representações anteriores. O retratado mostra os dentes, sorri, tem um ar bem disposto e descontraído, parece falar para o observador.

Muitos visitantes e alguns críticos têm reprovado esta formulação do retrato de um Chefe de Estado e, embora reconhecendo a bonomia do retratado, prefeririam um retrato mais austero. No fundo, um Chefe de Estado é mais do que si próprio, é a figura da Nação que deve, a bem da dignidade dos símbolos da pátria - como o hino e a bandeira -, apresentar maior gravidade.

Embora contrafeito, o visitante comum desculpará a irreverência, que atribuirá a ideias modernistas do retratado, de quem sobressairá uma imagem de homem de mentalidade arejada.

ILUSTRAÇÃO: "PRESIDENTE MÁRIO SOARES", DE JÚLIO POMAR, 1992
ILUSTRAÇÃO: "PRESIDENTE MÁRIO SOARES", DE JÚLIO POMAR, 1992
O rosto não é o de um retrato típico, por refletir a postura afável de Mário Soares, que olha o interlocutor nos olhos, sem preconceitos. Apresenta a atitude de bom conversador, disponível para o gracejo e para se entusiasmar com o discurso do outro. O braço direito gesticula animadamente, como um orador inflamado. Mas sorri. Inclina-se para a frente, em atitude de aceitação e entendimento com o outro. Evoca a estátua do poeta Chiado, só que Soares está instalado numa cadeira com uma configuração marcadamente associada ao poder, devido às duas cabeças de leão que ostenta nos braços. Todos os poderosos gostam de se associar ao rei da selva.

De que falará ele com tanto entusiasmo? É um político, um socialista. A mancha rosa que espalha com a mão direita não deixa dúvidas. Mas trata-se de uma mancha informe, um esboço, uma ideia. Fala dela sem fazer um desenho rigoroso. É uma ideia que não se sabe como pôr em prática, um sonho, uma utopia. Lido assim, o retrato fala.

E a mão esquerda o que faz? Aponta rigidamente para si próprio. Contrasta fortemente com a direita, que é mais natural em alguém que fala para outrem. Esta mão esquerda está colocada numa posição estranha, inesperada. Conterá alguma pista para leituras alternativas? De Júlio Pomar, em cujas obras já terá entrevisto mensagens escondidas, o visitante avisado só pode esperar desafios interpretativos.

Então, reparando com atenção, percebe dois ou três riscos curvos à frente da ponta do indicador da mão esquerda, recurso muito utilizado pela banda desenhada para sugerir movimento. O dedo abana lateralmente. Indica um “não”. O visitante, em alerta, recupera instantaneamente uma frase marcante do PREC: “Olhe que não! Olhe que não!”

O olhar descobre agora que a cor da manga esquerda é diferente da do restante fato. A convicção instala-se: o aparente braço esquerdo de Soares, não é um braço dele; é de Álvaro Cunhal. O retrato, mais que marcar para a posteridade a fisionomia de Mário Soares, lida pelo artista, plasmou um momento marcante da história de Soares e do país, quando os dirigentes dos dois partidos mais poderosos se enfrentaram perante as câmaras da RTP em 6 de novembro de 1975 - fez agora 50 anos. Soares acusava Cunhal de pretender a

(...)

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Por: Joaquim Bispo

 

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