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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 30-11-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    Outra vez Natal!

    No Natal do ano passado fazia uma reflexão sobre a nossa “pobreza” como seres humanos, porque muitas vezes não dispensamos aos outros uma simples saudação de bom dia. Dá a ideia que esta palavra estará a entrar em desuso e dou-me conta disto a cada dia que passa porque, volvidos quase 365 dias desde esse apontamento, eu continuo a reparar que sendo o motorista do autocarro a primeira pessoa com quem, se calhar, começamos a contactar logo pela manhã (se formos utilizadores deste meio de transporte público), praticamente ninguém os saúda quando entram. Numa contagem feita de forma “rasa” dá cerca de 5% de pessoas a fazê-lo.

    Antigamente dizia-se que isso era falta de educação e ensinávamos os filhos a cumprimentar quando passávamos por alguma pessoa conhecida, vizinha e às vezes nem isso – era um ser humano, o que por si só já merecia a nossa saudação. Claro que poderemos dizer que isso se deve à preocupação das pessoas em relação à conjuntura atual, porque andamos todos preocupados com as incertezas do futuro, etc. etc., mas isso não será motivo suficiente para nos alhearmos ou abrirmos mão das regras de boa educação, que por arrasto também estão a ficar em crise?.

    As primeiras “mestras” dos nossos meninos e dos meninos de muita gente que frequentam aqui o nosso Centro de Animação estão conscientes do papel que desempenham ao educá-los no cumprimento deste princípios. Apesar de não substituírem a responsabilidade dos pais – que do logo a partir do berço serão os nossos primeiros educadores, tornam-se fundamentais porque ajudam a lançar umas sementinhas nos princípios da cidadania destes pequenos rebentos, o legado que se deixa a um país. Acreditando que atitude gera atitude, se a saudação não for um hábito das suas casas, pode ser que assim, estas regras se interiorizem e se enraízem dentro delas, e valha o ditado popular: “De pequenino se torce o pepino”.

    Foto GL
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    Agora, voltando à reflexão em que tenho por hábito registar a imagem que para mim simboliza o espírito de Natal, o meu sentir deste ano fixa-se num menina de 26 anos, com uma franja no cabelo pintada de cor-de-rosa. Tornou-se minha companheira de viagem assim como uma outra senhora, empregada num restaurante. Certo é que depois das 22h30, por hábito lá está o trio, à espera do autocarro. É normal que com o tempo nos vamos conhecendo e falando entre nós do que é trivial e faz parte do quotidiano de cada uma, e esta mulher, com rosto traquina de menina, vai desfiando pedacinhos de vida, difícil e dura – órfã de pai muito nova, começou a trabalhar aos 14 anos em regime de part time e férias. Aos dezassete anos abraçou a tempo completo a sua profissão, que aprendeu de forma disciplinada e exigente: a respeitar as hierarquias, a ter brio no trabalho bem feito, a responsabilizar-se perante as tarefas que executa e acima de tudo a aprender com os erros e a continuar a lutar, recusando-se a cruzar os braços.

    Abandonada na sua primeira gravidez pela sua primeira paixão, voltaria a tentar ser feliz, mas o legado que lhe deixaram foi de novo, um filho. Assim, é com orgulho e um brilho forte nos olhos que fala nos seus rebentos de 6 e 4 anos, que são criados com o apoio da mãe dela, a única retaguarda com quem sabe poder contar. Mas aqui, é justo registar a outra colega de autocarro, numa partilha que faz com ela e quando lhe é permitido – trazer do restaurante um tupperware com bacalhau com natas que a delicia, ali mesmo, na paragem porque neste gesto nem o talher é esquecido. É gratificante ver o seu sorriso de orelha a orelha e a forma como se deleita com este mimo. Contudo, o seu amor de mãe lá está, no cuidado de guardar uma pequena reserva para os seus meninos – «adoram esta comida e vão ficar tão contentes quando virem o que lhes levo». O mesmo acontece também com a mousse de chocolate ou outros pedacinhos de generosidade, transformados em surpresas que vêm dentro daquelas pequenas embalagens.

    Esta menina da franja dizia-nos que já fez o seu pinheirinho de Natal, a surpresa para os filhos. Num esforço grande que ela faz para somar euros e cêntimos, que ganha à comissão no seu trabalho, em que aproveita tudo, estou certa vai conseguir colocar lá debaixo uma prendinha para eles, que lhes iluminará os olhos e o sorriso. Mas o coração desta jovem mãe também guarda para ela mesma a prenda envenenada pela crise, pelo desalento e pela falta de alternativas – um bilhete de ida para Inglaterra, em janeiro, o país onde está a tentar abrir portas para a receber e onde chegará com o nó apertado por uma saudade que já lhe ensombra o coração pela falta que os filhos lhe vão fazer. Diz que tem que dar a volta à sua vida e assegurar acima de tudo a educação dos seus filhos, preparando-os para um futuro melhor quando eles se lhes puderem juntar, num país que os há-de ver crescer e se calhar, multiplicarem-se lá, e por esse mundo fora. E eu acredito que o amor de uma mãe move montanhas e ela vai conseguir.

    «Podemos ter chegado em diferentes navios, mas hoje estamos todos no mesmo barco» – disse Martin Luther King, e será por isso que, numa verdade cada vez mais insofismável neste Natal, o coração de muitos pais, familiares e amigos passará apertadinho de saudade por tantos que tiveram e terão que partir em busca de um novo porto mais seguro.

    Feliz Natal!

    Por: Glória Leitão

     

     

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