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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 15-03-2010

    SECÇÃO: Destaque


    O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

    Nomes de heróis republicanos atribuídos às principais ruas de Ermesinde

    Por ocasião do 1.º aniversário da implantação da República os autarcas de Ermesinde deliberaram atribuir nomes às estradas e caminhos que passavam pelo centro da freguesia. E os nomes escolhidos eram particularmente caros ao sentir republicano: a data da Proclamação da República e uma mão cheia de nomes de heróis republicanos que muito deram de si para que a República tivesse sido uma realidade em Portugal. Porém, como veremos, nenhum deles chegou vivo ao dia 5 de Outubro.

    No largo fronteiro à Capela S. Silvestre convergem três das mais importantes artérias de Ermesinde "baptizadas" em 1911 com os nomes: "5 de Outubro", "Miguel Bombarda", e "Cândido dos Reis"
    No largo fronteiro à Capela S. Silvestre convergem três das mais importantes artérias de Ermesinde "baptizadas" em 1911 com os nomes: "5 de Outubro", "Miguel Bombarda", e "Cândido dos Reis"
    Porque Ermesinde estava cada vez maior, impunham-se algumas preocupações urbanísticas designadamente um mais cuidado ordenamento das suas artérias, com a atribuição de nomes às suas ruas. Foi precisamente no período da Primeira República que foram atribuídos os primeiros nomes às ruas desta Terra.

    E os nomes propostos para as principais ruas de Ermesinde não deixam lugar a equívocos: os Ermesindenses estavam de alma e coração com o novo regime e com os seus heróis. Assim, na sessão da Comissão Administrativa da Freguesia de Ermesinde, de 15 de Outubro de 1911 (a primeira após a celebração festiva do 1.º aniversário da implantação da República), por proposta do cidadão e membro daquela Comissão, José de Araújo e Sá, foi deliberado propor à Câmara de Valongo os seguintes nomes: à estrada central que parte da Estação e segue para a Capela de S. Silvestre, em direcção a Alfena – Rua 5 de Outubro; ao caminho da Ermida à Travagem – Rua Miguel Bombarda; à estrada da Formiga – Rua Cândido dos Reis (em 1935, um ano depois da morte de José Joaquim Ribeiro Teles, foi o seu nome atribuído a esta Rua); à estrada do Porto que passa pela Igreja e pelo lugar da Cancela – Rua Rodrigues de Freitas. E na sessão seguinte (5 de Novembro de 1911) foi proposto ainda o nome de Elias Garcia para a estrada da Travagem ao Alto da Maia.

    Quanto ao nome “5 de Outubro” nem é preciso tecer qualquer comentário, Ermesinde reafirmava, assim, convictamente o seu republicanismo, ao dar o nome da data da Proclamação da República em Portugal – logo na comemoração do seu 1º aniversário – à sua rua mais central!

    Vejamos agora quem foram as pessoas cujos nomes foram dados às outras ruas estruturantes de Ermesinde:

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    Miguel Augusto Bombarda (Rio de Janeiro, 1851 – Lisboa, 3 de Outubro de 1910), médico psiquiatra e político republicano. Estudou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde viria a ser professor e foi director do Hospital de Rilhafoles, onde criou o Laboratório de Histologia em 1887. Como professor na Escola Médico-Cirúrgica deu um importante contributo para a reforma dos estudos médicos. Republicano convicto, foi um acérrimo anticlerical. Tornou-se membro do Partido Republicano Português em 1909, tendo sido eleito deputado em Agosto de 1910. Membro do comité revolucionário que implantou a República em Portugal, em 5 de Outubro de 1910, foi considerado o chefe civil do movimento revolucionário, mas não chegou a testemunhar a vitória dos republicanos porque foi assassinado por um doente mental do Hospital onde trabalhava, poucas horas antes de ter começado a revolução republicana.

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    Cândido dos Reis (Lisboa, 1852 – Lisboa, 4 de Outubro de 1910). Militar (Almirante), foi eleito deputado nas listas republicanas de 1910, como destacado membro da carbonária, assumindo a organização militar da revolução do 5 de Outubro. Tendo sabido que o governo monárquico, chefiado por Teixeira de Sousa, já tinha conhecimento de que se preparava a Revolução, não quis adiá-la, mas, ao ver esmorecer o movimento, despediu-se dos oficiais da Marinha mais próximos e horas depois era encontrado morto. Suicidara-se por não querer conhecer mais um revés (desta vez era a vitória, mas não chegou a sabê-lo) e também em resultado do seu temperamento hipocondríaco.

    Rodrigues de Freitas (Porto, 24-1-1840 – Porto, 28-7-1896). Professor catedrático (de Engenharia) seria o primeiro deputado republicano eleito nessa condição para o Parlamento português, mostrando-se muito preocupado «com a transparência da Administração, a descentralização, a lisura dos procedimentos eleitorais e políticos, as grandes questões nacionais (como a educação, liberdades de culto, opinião, de associação e de imprensa, as colónias e o deficit orçamental». Aquando da Revolta Republicana do Porto (31 de Janeiro de 1891) ele foi o 1.º nome anunciado para fazer parte do Governo Provisório Republicano. Quando faleceu várias famílias pobres do Porto ficaram sem a pensão de 5$000 réis mensais (uma quantia apreciável para aquele tempo) que ele regularmente lhes pagava do seu bolso, bem como muitos mendigos nunca mais receberam as suas generosas esmolas.

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    Elias Garcia (Almada, 1830 – Lisboa, 1891). Militar (Coronel de Engenharia) foi Maçon (tendo sido Grão-Mestre em 1888 e considerado um dos responsáveis pela grande expansão maçónica entre nós), Professor da Escola do Exército (onde leccionou a disciplina de Mecânica Aplicada), Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fundador do Partido Republicano (tendo presidido ao seu Directório, entre 1883 e 1891) e seu Deputado, repetidamente eleito por Lisboa (1881, 1884, 1887 e 1890).

    Todos estes homens, que os republicanos de Ermesinde de 1911 escolheram para homenagear ao atribuírem os seus nomes aos seus principais caminhos e estradas, foram heróis do republicanismo português, mas, curiosamente, nenhum chegou vivo ao dia 5 de Outubro de 1910 (os dois primeiros foram a sepultar no dia 6 de Outubro de 1910, o primeiro dia do novo regime). Contudo, os seus nomes permanecem bem vivos entre nós!

    Por: Manuel Augusto Dias

     

     

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