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Edição de 31-07-2018
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    Arquivo: Edição de 30-04-2018

    SECÇÃO: História


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    A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL TEM CEM ANOS (33)

    O centenário da Batalha de La Lys

    Nós portugueses não podemos esquecer os dias dessa terrível batalha, porque "La Lys" marcou tragicamente a participação portuguesa na "Frente Ocidental" da 1.ª Grande Guerra, tantos foram os mortos, os feridos, os desaparecidos em combate e os prisioneiros. Os expedicionários portugueses que se bateram em La Lys foram recrutados um pouco por todo o país. Será difícil encontrar uma freguesia que não tenha visto mobilizado nenhum dos seus jovens para esta Guerra.

    Nesse dia, a frente de combate estendeu-se por 55 quilómetros, estando o lado dos Aliados guarnecido pelo 11.° Corpo Britânico, do qual faziam parte 84000 homens, entre os quais cerca de 20000 portugueses que integravam a 2.ª divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP), superiormente comandado pelo general Gomes da Costa. Oito divisões do 6.º Exército Alemão pretendiam concretizar a ofensiva alemã, que visava ultrapassar o rio Lys e tomar as cidades de Calais e Boulogne-sur-Mer.

    Os alemães (reforçados com a transferências de milhões de homens da Frente Oriental, que acabou devido ao Tratado de Paz de Brest-Litovsk assinada no mês anterior) iniciaram um violento bombardeamento de artilharia cerca das 4 horas e 15 minutos da madrugada e apenas em 15 minutos destruíram todas as comunicações por fio entre a "frente" e o quartel-general português. O assalto às trincheiras portuguesas ocorreu por volta das 7 horas. Quatro divisões alemãs, isto é, cerca de cem mil homens, avançaram contra 20000 portugueses.

    Apesar de vários exemplos de resistência verdadeiramente heroica, especialmente por parte da 4.ª brigada portuguesa, a verdade é que os soldados portugueses são submersos por esta ofensiva maciça. As tropas portuguesas, ao longo das intermináveis primeiras quatro horas das trinta que a batalha durou, perderam à volta de 7500 homens, contando mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, entre os quais 327 oficiais e muitas centenas de sargentos.

    Nas trincheiras, onde a sobrevivência era dura (frio, fome e humidade), estavam soldados portugueses misturados com os ingleses numa convivência difícil, dada a dificuldade de comunicarem por desconhecimento mútuo das línguas (é preciso lembrar que muitos soldados portugueses nem o ensino primário tinham e, por isso, o desconhecimento da língua inglesa era absoluto).

    O exército português desmoralizado e inferior em número foi esmagado. Entre as várias razões que explicam essa estrondosa e dramática derrota são, normalmente, apontadas as seguintes: o facto das tropas inglesas terem recuado nas suas posições, deixando mais vulneráveis os flancos do CEP; o golpe militar sidonista de dezembro de 1917, que quase abandonou os combatentes portugueses à sua sorte, não fazendo a prevista substituição dos soldados portugueses na "frente"; Sidónio Pais chamou a Portugal muitos oficiais com experiência de guerra que não regressaram ao seu posto de comando e lá fizeram falta; o armamento alemão era muito melhor em qualidade e quantidade que o português e o inglês; e o ataque alemão foi desferido no dia em que as tropas portuguesas tinham recebido ordens para irem para posições à retaguarda.

    MILITARES PORTUGUESES A CAMINHO DA GUERRA
    MILITARES PORTUGUESES A CAMINHO DA GUERRA

    OS PRIMEIROS JORNAIS PORTUGUESES A DAREM A NOTÍCIA

    Apesar da censura a que estava sujeita a imprensa portuguesa no período da Guerra, A Capital e O Seculo do dia 10 de abril de 1918 foram os primeiros órgãos de comunicação social a dar notícias sobre o 9 de abril de 1918, quando a Batalha ainda decorria. Duas informações provenientes de Londres, a 1.ª ainda muito incompleta, a 2.ª já com mais alguns pormenores.

    O Seculo desse dia, na 1.ª página, traz o seguinte título e textos:

    "UM ATAQUE INIMIGO / ÁS TROPAS BRITANICAS E PORTUGUEZAS / Os nossos recuam no centro e os ingleses n'uma das alas / O inimigo repelido em vários pontos - A luta prosegue violenta

    LONDRES, 9. - Hoje de manhã cedo a artilharia alemã desenvolveu grande atividade desde o canal de La Bassée até ao sul de Armentières. Além de um violento bombardeamento dos arredores de Villers, Bretonnex, Mericourt e L'Abbé nada mais há a registar. -H.

    LONDRES, 9. - Esta manhã, depois de violento bombardeamento das nossas posições desde o canal de La Bassée até ás proximidades de Armentières, importantes forças inimigas atacaram as tropas britanicas e portuguezas que defendiam este sector da nossa linha. Favorecido por um denso nevoeiro que tornava difícil a observação, o inimigo conseguiu penetrar nas posições dos aliados nas proximidades de Neuvechapelle, Fauquissart e herdade de Cordonnerie.

    Depois de um combate que durou todo o dia, o inimigo conseguiu fazer recuar no centro as tropas portuguezas e n'uma das alas as tropas britanicas até Lys, entre Estaires e Saint Maur. Mantemos as nossas posições nas duas alas, nos arredores de Givenchy e Fleurbaix. N'estes dois pontos travou-se vivo combate e o inimigo foi repelido. Richebourg, Saint Vaast e Laventie foram tomadas pelo inimigo. A luta continua violenta em toda a linha. Houve um recontro de menor importancia ao sul de Arras e no qual fizemos alguns prisioneiros. - H.

    A DESCRIÇÃO DESSA BATALHA PELO GENERAL TAMAGNINI DE ABREU

    O general Tamagnini de Abreu, comandante do Corpo Expedicionário Português na batalha de La Lys, descreveu assim, de forma muito sintética e ainda com pouco números reais, essa batalha:

    "Às quatro e um quarto da manhã do dia 9 foi iniciado um violento bombardeamento contra a frente portuguesa. Foram especialmente visados os comandos; desde os batalhões ao do corpo, cortadas as comunicações telegráficas e tornadas impossíveis outras comunicações em virtude de cerradas barragens. Quatro divisões inimigas desenvolveram às sete e meia um violento ataque contra as nossas forças, o qual se sustentou até às dez horas e meia. As nossas forças combateram com valor, mas foram obrigadas a retirar, sem pânico, em consequência do bombardeamento muito prolongado e constante e superioridade numérica da infantaria inimiga. Além disso nevoeiro muito intenso, que durou todo o dia, originou que a infantaria inimiga só fosse vista a 50 metros das nossas trincheiras. As nossas perdas em pessoal e material serão comunicadas logo que haja pormenores garantidos".

    Havendo ainda algumas incertezas quanto a números, pensa-se que na sequência desta trágica Batalha, o Corpo Expedicionário Português, contabilizou 400 mortos, dos quais 30 oficiais e cerca de 6600 prisioneiros, entre os quais 270 oficiais.

    Por: Manuel Augusto Dias

     

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