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Edição de 15-09-2017
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    Arquivo: Edição de 09-11-2012

    SECÇÃO: Crónicas


    CRÓNICAS DE LISBOA

    Os cafés do meu bairro

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    Neste domingo de manhã, saí de casa, para tomar a minha “bica” matinal, vício que não dispenso, afinal até tenho poucos. Dirigi-me a um dos três cafés que frequento habitualmente no meu bairro e no qual poderia “dar uma vista de olhos” pelo jornal que ali pode estar disponível. Azar o meu, porque o periódico estava a ser lido por outro cliente, pelo que paguei os sessenta cêntimos (€ 0,60) pela “bica”, valor esse praticado na maioria dos cafés e pastelarias, depois da subida da taxa do IVA, e fui dar uma volta pelo bairro, onde existem muitos cafés e pastelarias de variadas grandezas e padrões, aproveitando ainda o sol desta manhã domingueira de outono. Pelo caminho e sem que fosse essa a minha atenção, não pude deixar de reparar em anúncios nas montras sobre o preço da “bica”. Reparei então que um deles tinha afixado € 0,50, mas alguns metros mais à frente, um concorrente anunciava € 0,49! Contudo, muito mais adiante, existem três microcafés, quase lado a lado, e cada um anunciava € 0,45 pelo preço do café. Afinal, a concorrência acicata os empresários, embora para estes três, face à sua proximidade, a concorrência terá que se basear noutras variáveis do negócio que não no preço. No subsetor da restauração, também se assiste a ações de marketing com o objetivo de captação e fidelização dos clientes. Os empresários adotaram ainda outras práticas de que tinham uma certa relutância no “tempo das vacas gordas”, por exemplo, vender refeições para fora, facilitar aos clientes levarem as sobras para casa, menus completos ou mini-pratos, etc..

    A crise económica está instalada e, obviamente, todos os setores sofrem as consequências. Na restauração, além da subida do IVA em dez pontos (de 13 para 23%), o setor está a sofrer com o desemprego de muitos dos seus anteriores clientes, diminuição do poder de compra de outros, retração no consumo e também com a alteração dos hábitos dos portugueses que eram, dos europeus, aqueles com maior índice de frequência dos restaurantes e similares. Assim e face a estes factos, as falências no setor não param de subir e, ao contrário do que dizem os empresários e a associação do setor, não é apenas a subida do IVA a causa da sua crise. Como em muitos outros setores do nosso universo económico, este é composto por unidades que vão desde o microcafé até ao luxuoso e bem dimensionado restaurante, bem como uma diferente capacidade e competência empresarial dos seus agentes, pelo que esta crise poderá “separar o trigo do joio”, resistindo os mais capazes ou os que melhor souberem vencer “a tempestade da mudança” na nossa economia e de que a restauração faz parte.

    Neste verão entrei num restaurante duma cidade de província e fiquei surpreendido com a apresentação da unidade empresarial (nova). Fiquei ainda surpreendido com a amabilidade e atenção da empresária, que veio até à mesa inteirar-se sobre a minha satisfação, pelo que no decorrer da conversa que entabulámos a questionei se ela tinha tido consciência dos riscos que corria de ter investido em contraciclo, isto é, numa época em que as falências se sucedem no setor. Respondeu-me que não tinha medo e, no entusiasmo pelo seu projeto, disse-me ainda que esperava que a crise no setor beneficiasse o seu restaurante, isto é, que a crise “mataria” aqueles que estão pior preparados ou percebem pouco do ramo. Acrescentei-lhe então que ela acreditava naquele velho ditado popular de que : “Quem não tem vocação ou perceber do negócio, que feche a loja”.

    Muitos dos nossos pequenos “empresários” são empurrados para o negócio por variadíssimos motivos e nem sempre pelos melhores, isto é, uma opção consciente e munidos dos vários instrumentos necessários (saberes técnicos, saberes comerciais, saberes e recursos financeiros, associativismo, etc.) para que o negócio não seja uma aventura e cuja possibilidade de fracassar aumenta na razão direta da falta de preparação do seu promotor. Mesmo num pequeno café de bairro, que acaba por desempenhar uma função mais de carácer social do que económica, por exemplo dando “emprego” ao próprio dono que, de outro modo seria um encargo para o Estado, isso deve ser tomado em conta, porque os clientes não chegam para todos e não estão dispostos a “comer gato por lebre”, ou serem atendidos por pessoas que não reúnem as condições para o negócio. Apesar de, neste caso, o investimento ser reduzido, mesmo assim alguns desses “empresários” acabam por perder os anéis e a ilusão de serem independentes,e, com a falência, prejudicam também outros nesse fiasco, por exemplo, credores, Estado, etc.. Falta humildade para aprender com os outros, mas esse é um defeito de muita gente e que o individualismo não facilita.

    Por: Serafim Marques

     

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