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    Arquivo: Edição de 30-09-2012

    SECÇÃO: Editorial


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    Tempo de outono

    É no outono que se prepara o inverno – fazem-se as colheitas, armazenam-se os cereais e o vinho, guarda-se a lenha, preparam-se compotas, marmeladas e licores para adoçar as noites de inverno.

    Há séculos que é assim, o tempo organizado segundo um calendário que se repete de acordo com a posição do sol e da lua em relação à terra.

    E mais uma vez é outono, alguns ainda cumprem estes rituais de guardar e conservar produtos para consumir ao longo do ano, vão às feiras de S. Miguel e das colheitas que se repetem pelo país, fazem a marmelada, compotas e conservas, cada vez menos e por diferentes razões, o mundo mudou nos últimos tempos, rápido demais para o meu gosto, mas é neste mundo que vivemos e com o qual temos de lidar.

    Hoje dizem os sociólogos que vivemos numa sociedade capitalista de consumo, mas esta forma de viver não foi sempre igual e o próprio consumismo também apresenta variantes.

    Gilles Lipovetsky, professor de Filosofia na Universidade de Grenoble considera três fases no chamado capitalismo de consumo.

    O primeiro ciclo surge no século XIX e termina na Segunda Guerra Mundial: Corresponde ao período de desenvolvimento da revolução industrial, caracterizado pelo aparecimento dos grandes mercados e armazéns, o desenvolvimento de infraestruturas modernas de transportes e de comunicação, caminhos-de-ferro, telégrafo, telefone, que permitem o desenvolvimento do comércio em grande escala.

    O segundo ciclo inicia-se no Pós-Guerra, por volta de 1950, e é muitas vezes apelidado de «sociedade da abundância»:

    Corresponde a um período de um grande crescimento económico, de um certo modo a uma democratização do poder de compra de bens como o automóvel, televisão, aparelhos eletrodomésticos. Com a generalização do crédito a maioria das pessoas passou a adquirir bens independentemente das suas posses.

    "OUTONO" PINTURA ARCIMBOLDO
    "OUTONO" PINTURA ARCIMBOLDO
    No entanto este tempo da «felicidade paradoxal atrai soluções igualmente paradoxais. Precisamos, claramente, de menos consumo, entendido como imaginário proliferante da satisfação, como esbanjamento de energia e como excrescência desregrada dos comportamentos individuais.

    (…) Precisamos igualmente, sob certos aspetos, de mais consumo: para combater a pobreza, para auxiliar os idosos e oferecer cuidados de saúde melhores às populações, para utilizar melhor o tempo e os recursos, para nos abrimos ao mundo». (1)

    Terceiro período com início nos finais da década de 70:

    Gilles Lipovetsky chama-lhe «sociedade do hiperconsumo com que caracteriza os novos comportamentos, ostentatórios, consumistas, vorazes, hedonistas».

    Paralelamente a este hiperconsumo surgem muitas críticas e uma nova classe social de hiperconsumidores preocupados com a ética!...

    São muitas as contradições em que vivemos neste mundo, nesta Europa, neste país. Ainda há dias o próprio Governo caiu nesta esparrela. Foi-nos pedido que poupássemos e agora lamentam que a economia decline …

    Penso que ainda vai levar algum tempo para que surjam novas maneiras «de produzir, de efetuar trocas, mas também de avaliar o consumo e de pensar a felicidade». (1)

    E é no meio destas contradições que encontramos uma crise económica e financeira que para ser ultrapassada e aportar em bom porto terá que encontrar uma outra forma de viver em sociedade.

    Eu por mim continuo a fazer o meu outono, a apanhar lenha, caruma e pinhas, nozes, avelãs, castanhas, marmelos e rosa brava.

    (1) Lipovetsky Gilles, “A Felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo”, Edições 70, LDA Junho de 2010.

    Por: Fernanda Lage

     

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