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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 22-06-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    A cascata do Quim do Pedro

    Já passou o Santo António, agora estamos na semana do S. João, outro santo ligado à alegria e boa disposição, e já escrevi que eu não me atrevo a saber tudo e nem sequer vou ter a petulância de pretender mostrar conhecimentos profundos de religiosidade histórica do que quer que seja ou de quem quer que seja. Limito-me a respeitar e deixo tudo o resto para os entendidos nestas e noutras matérias.

    O mesmo se aplica às pessoas que posso e faço questão de mencionar, aquelas com quem a vida me vai cruzando e isso porque também aprendi que todos nós vemos os outros segundo as nossas perspetivas e “julgamos” segundo os nossos padrões. Daí que vão ser sempre aquilo que nós quisermos ver. Também aqui nem sequer me atrevo a presumir se são “boas” ou “más”, se são azuis ou cor-de-rosa, se são “grandes” ou “pequenas” – são somente pessoas, as que admiro, as que respeito, as que conheço e as de quem ouvi histórias em que me revejo ou das quais gostaria de ter sido protagonista.

    A uma das histórias achei-lhe piada e deixou-me saudosismo: os cromos que nos saíam em rebuçados que não passariam nos testes de qualidade de hoje tendo em conta que, de fabrico algo duvidoso, se derretiam rapidamente na boca. Certo é que ninguém se importava muito, pois o que se pretendia mesmo era juntar as figurinhas impressas nos papéis em que vinham embalados e queríamos ter ao custo que nos era permitido para completar as cadernetas onde os colávamos com “farinha triga” misturada em água e quando secavam deixavam as folhas das cadernetas duras e com o dobro da espessura.

    O S. João era profícuo para a “entrada do capital” para custear este sonho de crianças, dado que a fonte de rendimento provinha das cascatas que eram feitas na soleira das portas de casa, onde se colocavam os santos populares em pequeninas figuras de barro numa arte e engenho que se aprimorava o mais que se podia para que as pessoas gostassem e achassem piada, respondendo de forma positiva ao apelo que as crianças lhes faziam à sua passagem pela rua: “Um tostãozinho para a cascatinha!”.

    Depois, e também nas localidades, desenvolvia-se ainda a arte e o engenho de adultos que gostavam dos “trabalhos manuais” e lhes servia como hobby nas suas horas vagas, tendo em conta que não havia televisão e nem todos gostavam de ir “bater cartas” para os “tascos tradicionais”. Tinham um amor muito grande à “terra” onde viviam e gostavam de retratar isso nas cascatas que funcionavam como as miniaturas da vida, retratada em obras de arte popular, e que exprimiam a vida e a cultura das suas gentes.

    E eu, desatenta como todos, tinha-me deixado levar na engrenagem rápida do tempo e não me dava conta da importância cultural de um legado que está na memória de tantos e confesso que só me apercebi disso quando encontrei o filho do “Quim do Pedro” e lhe perguntei: este ano vamos poder ver a cascata? Respondeu-me que não – este ano não a fazia. Senti-lhe desmotivação e fiquei triste porque, como cidadã sentia-me responsável por esta decisão. Todos sabemos que nada funciona sozinho e, efetivamente, esta gente precisava de muito reconhecimento e de muita força da nossa parte para continuar e nós não lho demos, e ainda mais que aquilo era e é um bocadinho de todos nós!...

    Há muitos anos que eu não me tinha dedicado a ir ver a cascata do “Quim do Pedro”, aquela que teve início há mais de 40 anos e que começou a ser um acontecimento marcante na nossa freguesia, que se orgulhava muito da habilidade deste seu conterrâneo que gostava de reproduzir em pequenas miniaturas bocadinhos da nossa terra, pedacinhos da nossas gentes: os tamanqueiros, os serradores, as lavadeiras, a visita pascal, as bandas de música, etc..

    Foi bom poder ver que o amor por esta tradição não morreu com o “Quim do Pedro” e aposto que ele estará orgulhoso pela forma como os filhos lhe veneraram a tradição e deram seguimento ao seu sonho, conforme me foi permitido ver retratado no brilho dos seus olhos quando em 2010 me receberam na visita que fiz à cascata, que se encontrava em exposição e aberta ao público nas instalações que lhe foram cedidas pela junta da nossa freguesia, e confesso que fiquei abismada pela obra de arte que presenciei, de cariz profundamente popular, espalhada numa área de 30 m2 com mais de 300 bonecos em movimento.

    Mesmo apesar de ver expostas notícias que foram saindo em jornais sobre este trabalho de mestria, eu lamentei que somente naquela altura me tenha dado conta que graças ao trabalho daquela família, que é feito numa dedicação extrema e que para lá de um simples hobby passa por muito sacrifício e entrega, tendo em conta que é tudo feito manualmente e muito depois dos horários de trabalho – e isto durante muitos fins de semana e meses a fio. Assim me foi permitido ver retratada um pouco da nossa história e da nossa cultura popular que se vai diluindo no tempo.

    Ao pegar na doçura de uma história de cromos que também eram conquistados a jogar “ao vira” e a trocar os repetidos para completar a caderneta de uma criança (que representa todas as crianças da época), que a esta altura morava em Matosinhos, concelho onde está a raiz dos seres mais importantes da minha vida – as minhas filhas, atrevi-me a “passar a ponte” e relatar um acontecimento que me fez viajar por uma freguesia da Maia, a cidade onde agora moro e lanço neste momento a minha âncora na cidade do meu “ganha pão” – Ermesinde.

    Ao entrar todos os dias nesta cidade e na procura de apontamentos que gosto escrever para este jornal – que admiro pela coragem e pela teimosia de se querer manter vivo, se calhar tal como eu e tantos outros como eu –, ainda porque o faço ao som da música que ouço enquanto me vou ouvindo a mim mesma nas palavras que me vão saindo ao ritmo do teclado do meu computador, relembro a frase de Epicuro que desde há muito tempo está afixada num “outdoor” localizado em frente à igreja matriz desta cidade e que diz: «Faz tudo como se alguém te contemplasse».

    Foto ARQUIVO GL
    Foto ARQUIVO GL
    Não podia terminar esta contemplação sem regressar ao bocadinho do passado duma empresa que estava localizada no concelho de Valongo e onde o trabalho convivia paredes meias com a cultura. Aqui é impossível não lembrar que, a esta data, esta empresa se engalanava com os enfeites coloridos destas festividades e junto às linhas de montagem os colaboradores organizavam as suas cascatas feitas com material obsoleto, colocando-lhe as pequenas figurinhas de barro tradicionais das cascatas sanjoaninas. Num ano ousaram mais e juntaram-lhe uma exposição onde colocaram com orgulho uns manequins que foram vestidos com as roupas dos bugios, uma das grandes tradições históricas de Sobrado, uma das freguesias deste concelho.

    Em vésperas de sardinhada, pão, caldo verde e vinho no nosso gabinete de trabalho dizíamos que, na bandeirinha do nosso vaso de manjerico, colocávamos os seguintes versos, escritos pelo nosso colega Zé Pinto:

    “É noite de S. João

    Com alho-porro e cidreira

    Vamos lançar o balão

    E saltar a fogueira.

    Vão ali as nossas gentes

    De martelinho na mão

    Vão alegres e contentes

    Vão festejar o S. João”.

    Oxalá que assim continue a ser!

     

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