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    Arquivo: Edição de 15-04-2011

    SECÇÃO: Opinião


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    O que tem de ser (2)

    No artigo que escrevemos para a edição de 15 de Janeiro de 2011 deste jornal, começámos a colaboração recordando o provérbio “o que tem de ser tem muita força”, admitindo que, «a avaliar pelo que se passa com o bem ou malfadado FMI, parece que os portugueses estão apostados em demonstrar que o referido provérbio mantém a sua actualidade. E que não há duas sem três”. Decorridos menos de três meses, eis que hoje chega a Lisboa a “troika” (Comissão, FMI, BCE) que negociará com o Governo (a contra-gosto deste) e partidos da oposição, as condições para um resgate da dívida pública, falando-se de qualquer coisa como oitenta mil milhões de euros (80 000 000 000,00), cujos custos serão bem maiores do que seriam em meados do passado mês de Janeiro, como, aliás, à época alertava a economista do Banco de Portugal, Teodora Cardoso.

    Não restando dúvidas de que os portugueses terão de suportar agora medidas restritivas mais dolorosas que o financiador ditará, impõe-se perguntar: que terá movido José Sócrates e Teixeira dos Santos a esconderem a situação do país durante todo este tempo, sabendo, porque não o poderiam ignorar, que a mentira tem perna curta e que, por isso, não duraria toda a vida? Iremos suportar consequências mais gravosas que as que nos imporiam se o recurso à ajuda externa tivesse ocorrido no início do ano, embora menores que as que sofreríamos se os banqueiros não tivessem intervindo de forma determinada e pública obrigando o Governo a fazer, de um dia para o outro, o que durante demasiados meses andou a dizer não ser preciso. Ainda bem que os responsáveis das cinco principais instituições bancárias tiveram a lucidez de recusaram que as suas empresas seguissem, também, o caminho do abismo para onde os actuais governantes precipitaram o país, como reconheceu o ministro Luís Amado, em declarações à margem do Congresso do Partido Socialista (ou comício, como lhe chamou Mário Soares), realizado no passado fim-de-semana, na cidade de Matosinhos.

    Naturalmente que nenhum português tem razões para exultar com a falência da estratégia do PM, na medida em que todos serão chamados a pagar a pesada factura, resultante da sua trágica governação e obstinada atracção pelo abismo. E, menos ainda, quando este triste episódio prova o que frequentemente se diz quanto aos partidos: estão doentes, não são parte das soluções, precisam de se regenerar. Todavia, as “entourages” blindam qualquer tentativa nesse sentido, ainda que seja evidente a necessidade patriótica de algo fazer.

    Com efeito, não sendo possível separar as decisões governativas de José Sócrates da situação humilhante em que nos colocou perante os credores, sujeitando-nos à condição de mendigos diante dos demais parceiros comunitários, passará pela cabeça de alguém que quem assim governou durante seis anos vai mudar de comportamento se vier a ser designado primeiro-ministro após as anunciadas eleições? Com mágoa pressentimos que a resposta é negativa.

    Se os partidos fossem instituições preocupadas com a defesa dos superiores interesses do país, o mínimo que deveriam oferecer à democracia, nas actuais circunstâncias, seria proporcionar aos eleitores alguém que inspirasse confiança de fazer melhor. Infelizmente a realidade é confrangedoramente diferente. O resultado das “directas” e o ambiente vivido no XVII Congresso socialista, são irrefutáveis provas de que os verdadeiros objectivos dos partidos políticos portugueses são o poder, as mordomias e ocasiões de emprego e de negócio para os possuidores do “cartão” e financiadores de campanhas. Tudo o mais é conversa mole para enganar incautos.

    Não se pense que não entendamos que a escolha dos dirigentes partidários só aos respectivos militantes diz respeito, mas lamentamos que estes não consigam colocar os interesses do país acima dos partidários e, menos ainda, quando vivemos momentos de verdadeira perda de soberania em resultado de gestão danosa de quem, tendo feito o seu melhor, outra coisa não conseguiu que não seja a ruína do país, com a consequente pobreza e humilhação dos portugueses. Será preciso melhor certidão de incompetência?

    O caricato da situação poderá ser aferido com o seguinte exemplo: imaginemos um empresário que tem uma grande empresa operando regularmente com prestígio no mercado e capacidade económica para recorrer ao crédito na execução dos seus programas empresariais; contrata um administrador a quem paga para gerir o negócio; passados seis anos, constata que a empresa está falida e impossibilitada de recorrer à banca, com as principais instituições a recusarem continuar a financiar a sociedade. O que se espera que o empresário faça? Mantenha o administrador para que destrua o que ainda possa existir? Ou, pelo contrário, sabiamente, cria as condições para substituir quem lhe desbaratou o património? É pena que os partidos políticos não imitam os empresários de sucesso, preferindo optar pela inversa: seguir as teorias de que quanto pior melhor, desde que os “arregimentados” partidários conservem as mordomias proporcionadas pelo impreparado gestor.

    Não sei se estamos atrás dos arbustos ou no último patamar do abismo aguardando que os emissários dos donos do dinheiro convençam os decisores europeus a darem-nos a tábua de salvação ou, se confrontados com situações financeiramente inimagináveis, não sejam capazes de dissipar as dúvidas da ministra francesa que não passa o cheque antes de conhecer as contas, ou de convencer o finlandês Olli Rehn, que declara publicamente que os seus compatriotas não gostam de governos que não sabem gerir as contas públicas, ao mesmo tempo que, aproveitando para responder ao nosso PR, declarar estar cansado de construir cenários imaginários nas conversas com as autoridades portuguesas, deixando intuir que nos quis dizer que os PEC são o resultado desses exercícios, num processo de conluio para irem mantendo os portugueses na ignorância do verdadeiro estado das finanças públicas, até que um qualquer evento proporcionasse ilibar politicamente os verdadeiros culpados, endossando as responsabilidades para quem, pouca ou nenhuma, participação teve na sua gestação. E, a avaliar pelos resultados das sondagens, parece que a coisa está a resultar.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

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