Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 31-07-2019
  • Edição Actual
  • Jornal Online

    Arquivo: Edição de 10-09-2009

    SECÇÃO: Desporto


    A história do fim da Secção de Pólo Aquático do CPN contada pelas suas personagens principais

    Setembro teve início de uma forma muito conturbada para o pólo aquático do CPN, com a notícia de que a Secção tinha acabado.

    De imediato inúmeras vozes de protesto e revolta se ergueram contra uma decisão que a larga maioria diz ter sido da responsabilidade do presidente da Direcção Augusto Mouta. Este, por seu turno, rejeita tais acusações e atira as ditas responsabilidades para a própria Secção de pólo.

    No sentido de compreender e esclarecer melhor toda esta situação, o nosso jornal escutou alguns dos principais protagonistas da mesma, nomeadamente o próprio Augusto Mouta, o histórico treinador/jogador e responsável pela piscina Nuno Lobo, e ainda dois ex-dirigentes de secção e pais de atletas, Rui Machado e Carlos Mourão.

    A ameaça, por assim dizer, pairava no ar desde a Assembleia Geral (AG) de 22 de Maio último, dia em que Augusto Mouta propôs uma alteração, de 1.90m para 1.30m, da piscina principal do CPN com vista, segundo as suas palavras, a uma redução de despesas mensais na manutenção da citada infraestrutura, gastos esses que para Mouta eram – e continuam a sê-lo – insustentáveis para o clube no actual cenário de conjuntura económica que se vive um pouco por todo o Mundo. Mediante a proposta avançada o alarme soou de imediato: o pólo teria os dias contados, pois convém explicar que é impossível, além de ser proibido pelas regras da modalidade, jogar numa piscina com uma profundidade tão reduzida.

    Pela sua importância e delicadeza o assunto teria de ser analisado e discutido com atenção redobrada, pelo que seria convocada uma AG Extraordinária para 23 de Julho.

    Nessa noite a proposta avançada por Augusto Mouta seria largamente “chumbada” pelos associados do CPN, a grande maioria respondeu com um claro “não” à alteração das medidas da piscina principal.

    Por esta altura estava já criado um “braço de ferro” entre Augusto Mouta e os defensores da continuidade das actuais medidas da piscina, formados maioritariamente por elementos afectos ao pólo aquático (atletas, dirigentes, ex-dirigentes e pais de atletas).

    Até que no início deste mês um novo capítulo surgiu nesta história: em comunicado público (ver num dos anexos) a Secção de Pólo anunciava a extinsão da modalidade dentro do CPN, sublinhando que esta havia sido uma decisão do presidente Augusto Mouta.

    Já em conversa com o nosso jornal Augusto Mouta nega que tenha sido ele a extinguir a Secção, explicando que a Direcção apenas a suspendeu por tempo indeterminado, conforme se pode ler em texto anexo, no comuniciado dirigido à Secção. «A Secção de Pólo acabou com ela própria. Eles é que vieram com comunicados a público dizer que o pólo tinha acabado por minha ordem, quando nós apenas a suspendemos. Do CPN ninguém viu nenhum comunicado a dizer que a Secção estava extinta, eles é que tomaram a iniciativa de vir cá para fora informar que a modalidade tinha acabado no clube», refere. O líder da Direcção cepeenista afirma mesmo que a Secção de Pólo menosprezou a decisão de uma Direcção «eleita democraticamente», «eles é que fizeram a ruptura com a Direcção, e a partir dessa atitude nós não quisemos mais dialogar com eles». Sublinharia mais uma vez que a tomada de decisão da Direcção foi suspender por tempo indeterminado a Secção, mas que os órgãos directivos têm poder para extinguir uma Secção, pois isso está nos estatutos do clube.

    A VERSÃO

    DE NUNO LOBO

    Foto CARLOS MOURÃO
    Foto CARLOS MOURÃO
    Histórico da modalidade, e neste momento o jogador mais antigo em actividade em todo o país, actual vice-presidente da Federação Portuguesa de Natação, jogador/treinador do CPN, e um dos fundadores da Secção no clube de Ermesinde, Nuno Lobo é, por esta altura, um homem triste com a situação. Antes de mais recusa que tenha sido a Secção a “auto-extinguir-se”, pois a extinção foi uma decisão do presidente do clube, figura esta que comunicou via telefónica ao próprio Lobo que o pólo tinha acabado, que não ia funcionar mais. Mas antes deste telefonema Nuno Lobo recorda a reunião que teve com a secretária da Direcção, realizada no sentido de planear o funcionamento da piscina para a nova época no que diz respeito aos monitores, uma vez que Lobo desempenha igualmente, como se sabe, funções de coordenador da infraestrutura. Relembra que nesse dia a secretária da Direcção lhe comunicou que a Secção de Pólo estava suspensa, e que a piscina se encontrava vazia em virtude de um problema técnico – e ainda se encontra, como se pode ver numa das fotos, embora Augusto Mouta tenha avançado ao nosso jornal que esta situação vai ser resolvida dentro de dias, assim que o problema técnico for resolvido e o tanque limpo. Nuno Lobo relembra então que teve o cuidado de perguntar à secretária da Direcção o que significava exactamente esta suspensão, o que ela queria dizer com a palavra “suspensa”, questionando ainda se mesmo com a piscina vazia a Secção de Pólo poderia usar as restantes instalações do clube para iniciar os trabalhos de preparação física com vista à nova época que aí está à porta. A resposta da secretária foi de que não, que a Secção estava suspensa.

    Posteriormente surge então o telefonema de Augusto Mouta, tendo Lobo questionado o presidente àcerca da dita suspensão, ao que o líder directivo retorquiu dizendo que a secretária da Direcção não se tinha explicado bem, que a Secção não estava suspensa, mas sim... tinha acabado.

    Lobo recorda ainda algumas das palavras de Mouta nesse dia: «Acabou, não vai funcionar, quem manda aqui sou eu». Mediante isto o jogador/treinador do CPN comunicou esta decisão à restante Secção, e só posteriormente surgiram os tais comunicados da Secção dando conta dos acontecimentos.

    OS ARGUMENTOS

    DE AUGUSTO MOUTA

    Foto ARQUIVO MANUEL VALDREZ
    Foto ARQUIVO MANUEL VALDREZ
    Relembre-se que a proposta de Augusto Mouta em diminuir a profundidade da piscina se deve, segundo o mesmo, à incapacidade económica que o clube tem neste momento para suportar as despesas mensais que uma infraestrutura daquele tamanho acarreta, em especial a conta do gás que, nas palavras do presidente é insustentável. «Vivemos uma conjuntura económica, e o CPN não é um clube rico. Temos de rentabilizar os nossos espaços de forma a podermos sobreviver. Não podemos esquecer que ainda estamos a pagar ao banco a construção deste complexo desportivo, além das elevadas contas mensais que temos de pagar, como o gás, água e luz. Não temos receitas para fazer face às despesas e, como tal, temos de encontrar soluções para as colmatar.

    O CPN não tem condições económicas para ter uma piscina de 1.90m, é impossível com este panorama de crise pagar as despesas mensais de uma infraestrutura destas. Temos de a diminuir e rentabilizá-la. E essa rentabilização pode muito bem ser feita através de aulas de hidroginástica, sendo que com a diminuição de 1.90m para 1.30m ficaríamos com muito mais espaço para a realização dessas aulas», explica Mouta.

    Acusaria ainda a “oposição”, por assim dizer, de não apresentar propostas concretas no sentido de encontrar soluções para fazer face aos gastos da actual piscina, desafiando mesmo à realização de uma nova Assembleia Geral para quem quiser apresentar alternativas a esta proposta que ali o faça.

    «ELE (MOUTA)

    NÃO SABE OUVIR,

    PENSA QUE É O DONO

    DO CLUBE»

    «É mentira dizer-se que não apresentámos soluções», contestam Nuno Lobo, Rui Machado e Carlos Mourão, estes dois últimos ex-dirigentes da Secção de Pólo e pais de atletas do clube. Todos são unânimes em afirmar que Augusto Mouta não recorreu a estudos, à opinião de arquitectos e outros profissionais entendidos na matéria, para assentar a sua proposta. «Para ele é tudo “ses”. Ele já avança com valores de lucro mensais caso a piscina seja alterada, isto se nas contas dele forem inscritas “x” pessoas na hidroginástica. É tudo “ses”, não apresenta dados concretos, e depois não sabe explicar onde vai buscar estes valores de lucros mensais que avança, além de que não sabe se vai ou não ter o número de utilizadores da hidroginástica que avança. Nós apresentámos na Assembleia Geral várias propostas em alternativa à redução do tanque da piscina. E foram apresentadas com base em estudos elaborados por pessoal técnico, mais precisamente por um arquitecto. Entre outras propostas avançámos com a da construção de um fundo variável para a piscina, o qual poderia fazer subir o tanque para 1.30m para a realização das tais aulas de hidroginástica e descê-lo para 1.90m para as restantes actividades. E esta hipótese, se calhar, é até bem mais barata do que a elevação definitiva da piscina como o Augusto Mouta quer. Além disso o clube pode concorrer a fundos do Insitituto do Desporto de Portugal para a realização de obras. Isto foram algumas das ideias apresentadas por nós na AG mas que não foram sequer ouvidas pelo Augusto Mouta. Ele não sabe ouvir, é ditador, pensa que é o dono do clube, o que não é verdade, os donos do clube são os associados», sublinham.

    Rui Machado e Carlos Mourão frisam, antes do mais, que são o rosto visível de um grande grupo de pessoas ligadas não só ao pólo como também à própria natação e mesmo à hidroginástica, que estão deveras descontentes com a posição de Mouta, e que não estão nesta causa, digamos assim, em nome individual. Dizem que querem trabalhar, encontrar soluções para gerar receita ao clube, e tinham algumas em mente. Uma delas, por exemplo, era a da obrigatoriedade de que todos os atletas de pólo aquático se fizessem associados do CPN. Isto apesar de frisarem que neste momento a Secção não dá nada ao clube mas que o mesmo também não dá nada à Secção. «Nós não damos prejuízo ao clube. As deslocações das várias equipas da Secção são suportadas pelos próprios atletas ou pelos pais destes. Mas estamos dispostos a angariar receitas para o CPN, contudo o Augusto Mouta não deixa as pessoas trabalharem, apresentar propostas, ao invés disso insulta-as aos berros, está a destruir o clube, e o pólo aquático está a ser o bode expiatório. E porquê o pólo? E as outras modalidades? As que foram anos seguidos deficitárias? O pólo aquático nunca, em ano algum, apresentou qualquer prejuízo, bem pelo contrário, terminava sempre o ano com algum lucro», referem novamente Carlos Mourão e Rui Machado. Fazem ainda questão de realçar que numa altura em que a Direcção alega ter dificuldades financeiras – justificação dada no comunicado oficial endereçado à Secção – o pólo do CPN, diga-se Secção, tem neste momento um saldo positivo de 1 350 euros, provenientes das mensalidades dos atletas. Verba essa que está na posse da Direcção. «Apesar deste saldo positivo, o treinador Jorge Coelho tem dois salários em atraso. De referir que o Augusto Mouta sempre afirmou que o dinheiro das secções seria gerido pela Direcção, contudo, sempre que as secções precisassem, ele estaria ao dispor», explicam. Alertam igualmente para o facto de, nos Estatutos e Regulamento Interno do clube não existir o “poder” para suspender uma Secção, conforme foi deliberado no comunicado emitido pela Direcção. «No artigo 41, alínea F, não é mencionada a figura de suspensão. O mesmo diz que a Direcção pode criar ou extinguir, não menciona o acto suspensivo».

    LOBO: «A ATITUDE

    DO PRESIDENTE

    É UMA VINGANÇA»

    Foto MANUEL VALDREZ
    Foto MANUEL VALDREZ
    Nuno Lobo tem uma explicação muito simples para tudo isto: «Ele não soube aceitar a vontade da grande maioria dos associados na última AG. Não houve cultura democrática da parte dele. A única proposta que foi a votos chumbou e ele não aceitou isso. Como tal, esta decisão dele foi uma vingança. Lamento profundamente esta atitude, principalmente pelos cerca de 40 miúdos que estão inscritos no pólo e que agora vão embora». Explica também que o Fluvial Portuense – clube para onde irá transitar a maior parte de atletas e técnicos do CPN – apareceu muito depois de toda esta história “estalar”, agremiação esta que teve sempre um comportamento neutral no meio de tudo isto, sendo que nem todos os atletas do CPN vão para este emblema do Porto como foi avançado por muita imprensa, explicando que com esta decisão de Mouta em colocar um ponto final no pólo do CPN os atletas tinham de decidir a sua vida, até porque as inscrições para o Campeonato Nacional da 1ª Divisão terminavam precisamente nesta segunda semana de Setembro. «Nós não queríamos sair, estamos todos muito tristes, pois pretendíamos ficar no CPN».

    Lobo (cuja carta pessoal contendo a sua análise dos factos também aqui publicamos) confirmaria ainda o convite feito por Augusto Mouta para que ficasse no CPN a trabalhar como monitor, embora com uma redução de salário, isto depois do presidente ter dado a conhecer à Secção de Pólo a sua decisão. Contudo, o jogador/treinador recusaria. «Se o pólo continuasse eu até nem me importava com a redução do salário, ficava na mesma. Mesmo tendo ele dito que não precisava de um coordenador para a piscina. E se assim é, ele está a cometer uma grande ilegalidade, pois uma piscina tem de ser coordenada por um licenciado em Educação Física», informa.

    Na conversa que mantivemos com Augusto Mouta este frisaria que havia dito à Secção de Pólo que o clube estaria disposto a dar uma ajuda no sentido de esta encontrar uma piscina para treinar e jogar. Os “oponentes” de Mouta contestam, e não compreendem como é que o presidente diz não ter dinheiro para a manutenção da actual piscina e querer ajudar monetariamente o pólo a encontrar e alugar uma outra piscina de fora para jogar e treinar.

    Alegando que nada tem contra a Secção de Pólo, Augusto Mouta sublinha que o CPN é um clube de formação, e cujas modalidades são puramente amadoras, e que é desta forma que tanto o andebol, como o basquetebol, a pesca desportiva, a natação e o karaté estão a funcionar. «E estão a funcionar bem, está tudo a correr muito bem com estas secções», refere. Utiliza ainda a expressão “prefiro cortar um braço do que morrer” para explicar os cortes financeiros que fez e que pretende efectuar no clube, como forma de manter este vivo. «Enquanto eu aqui estiver o CPN não vai morrer, agora as pessoas têm de entender que é preciso fazer sacríficios para manter esta casa aberta», diz.

    Carlos Mourão e Rui Machado não são desta opinião, e dizem mesmo que com estas atitudes Mouta vai mais dia menos dia acabar com o CPN, sustentando esta afirmação com o facto de cada vez mais gente se estar a afastar do clube. Contudo, dizem que não irão desistir, dando desta forma a entender que este “braço de ferro” está longe de chegar ao fim.

    Por: Miguel Barros

     

     

    este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
    © 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
    Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.